Rio de Janeiro, 01 de Setembro de 2026

Dilma, me mente que eu gosto!

Por Celso Lungaretti - Citando o governo de Dilma, na Folha de S. Paulo desta 3ª feira, 25: Em mais um dia de fortes turbulências na China, o Palácio do Planalto considerou preocupantes os efeitos da piora do cenário externo sobre o Brasil porque vão dificultar ainda mais a recuperação da economia brasileira neste ano e no próximo.

Quarta, 26 de Agosto de 2015 às 16:58, por: CdB
Por Celso Lungaretti, de SãoPaulo:
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Maravilha! Agora a presidente Dilma tem a desculpa para a inflação e recessão: a crise na China...
Citando o governo de Dilma, na Folha de S. Paulo desta 3ª feira, 25: Em mais um dia de fortes turbulências na China, o Palácio do Planalto considerou preocupantes os efeitos da piora do cenário externo sobre o Brasil porque vão dificultar ainda mais a recuperação da economia brasileira neste ano e no próximo. O receio da equipe presidencial é que uma desaceleração chinesa acentue a retração da economia brasileira em 2015 e gere risco real de o país continuar em recessão em 2016, algo que o governo vinha descartando2.
Uma gracinha, não? Eis que cai do céu uma desculpa para a recessão que inevitavelmente ocorreria também em 2016. A culpa é da China!, dirá a Dilma. Como, aliás, já está dizendo:
Até eu voltar [da reunião] dos Brics [em julho], estava achando que [a crise econômica no exterior] era superável. Só não contava com essa queda sistemática. Estava achando que era superável por tudo que eu sabia. Ia ter dificuldade, mas não ia ter uma situação muito difícil. A partir de hoje, não sei. Ninguém sabe.
Ou seja, desse "tudo" que ela, como presidenta, "estava achando" em julho, ficou de fora a avaliação do FMI na sua reunião de abril, sobre a qual eu escrevi no dia 23/04:
"O Fundo Monetário Internacional, no seu encontro da semana passada, colocou os pingos nos ii: o PIB brasileiro deverá ter evolução negativa em 2015 (-1%) e baixo crescimento no restante da década: 0,9% em 2016, 2,2% em 2017, 2,3% em 2018, 2,4% em 2019 e 2,5% em 2020.
Segundo as previsões do FMI, que costumam dar certo ou chegarem perto disto, a tendência é de que não atinjamos, na atual década, nem sequer metade do crescimento alcançado na década passada, que foi de 3,6% ao ano.
A recessão será brava em 2015 e 2016, com os quatro anos seguintes trazendo algum alívio, mas ainda nos deixando bem longe dos cenários comparativamente auspiciosos da década anterior".
Conclusão óbvia: se em julho a Dilma não levava em conta um quadro negativo que o FMI escancara três meses antes, é melhor colocarmos as barbas de molho. Pode ser que tenhamos uma Edward John Smith (o comandante do Titanic) na Presidência. E o iceberg está cada vez mais próximo...
Mais: na 2ª feira da semana passada, sete dias antes do crack da bolsa chinesa, O Estado de S. Paulo informava que analistas agora projetam dois anos de recessão na economia. Eis os parágrafos iniciais:
"Pela primeira vez no Relatório de Mercado Focus, analistas do setor privado estimam queda da atividade também em 2016. Além disso, os analistas mais pessimistas também renovaram suas apostas para baixo no caso da inflação e dólar. A estimativa mais negativa agora mostra uma inflação na casa de dois dígitos em 2015 e o dólar em R$ 4, também pela primeira vez no relatório.
De acordo com o documento divulgado pelo Banco Central, a mediana das previsões para o Produto Interno Bruto (PIB) do ano que vem passou de 0% da semana passada para um recuo de 0,15%. Há quatro semanas, a taxa vista era de alta de 0,33% para esse indicador.
Para este ano, a deterioração das previsões do mercado financeiro para a atividade no País também está cada vez mais forte. De acordo com o boletim Focus, as projeções para o PIB de 2015 foram revisadas de uma queda de 1,97% para uma baixa de 2,01% agora. Há um mês, a previsão estava negativa em 1,70%".
Ou seja, as perspectivas já eram bem ruins em abril e pioraram ainda mais nos meses seguintes, de forma que, com ou sem crack na China, Deus e o mundo já sabiam que a continuidade da recessão era uma certeza para 2016. Menos a Dilma, que agora tem um ótimo pretexto para jogar a culpa dos seus fracassos nos cenários externos, como sempre faz.
O BUNKER DO GOVERNO DILMA
Há muitas explicações possíveis para o fracasso retumbante do segundo governo de Dilma Rousseff e muita gente tentando encontrar algo novo para dizer, depois do tanto que já foi dito.
Nesta 4ª feira, 26, o jornalista/historiador Elio Gaspari conseguiu introduzir uma abordagem diferente. Palmas para ele! E até que a coisa faz muito sentido:
"A falta de experiência parlamentar (o caso de Dilma) ou a incapacidade de preservar alianças (o caso do PT) influi no metabolismo dos palácios, transformando-os em bunkers: 'Nós estamos certos e todos os outros estão errados'. Em seguida, dentro do bunker, estabelece-se uma competição de egos. 'Eu estou certo e meu rival dentro do governo é a causa de todos os males'.
Desgraçadamente, uma vez criada a mentalidade do bunker, o mundo em volta deixa de ter importância. Briga-se pela briga. O exemplo extremo dessa patologia pode ser encontrado no bunker mais famoso de todos os tempos, o da Chancelaria do 3º Reich, em 1945.
Aquilo é que era bunker, a oito metros de profundidade. Hitler e seu 'núcleo duro' enfurnaram-se nele em janeiro e de lá o Führer comandava sua guerra, tendo Martin Bormann como seu braço direito. Velho rival do espalhafatoso marechal Herman Goering, Bormann teve o seu momento de esplendor no dia 25 de abril e conseguiu demiti-lo de todos os cargos, expulsando-o do partido. Os russos estavam a poucos quarteirões de distância. No dia 30 de abril, o Führer matou-se e, uma semana depois, o poderoso Bormann deixou o bunker. Enfim, vencera e fora designado testamenteiro de Hitler e chefe do partido nazista. Morreu na rua, a pouca distância do bunker".
O que se vê na cúpula do Executivo é exatamente o distanciamento patológico do mundão lá fora, a total falta de sensibilidade política, a ponto de, em julho de 2013, nenhum grão petista ter atentado verdadeiramente para o fato de que as ruas começavam a ter voz própria, ou, um ano atrás, para o fato de que havia uma gravíssima crise econômica incubada, prontinha para eclodir no início do governo seguinte.
Não, a obsessão com a politicalha miúda e sórdida de Brasília a todos cegava. A ponto de uma antiga revolucionária como a Dilma, que deveria conhecer muito bem os antecedentes do golpe de 1964, ter repetido o desatino do João Goulart, de tentar impor políticas econômicas conservadoras (até o banqueiro Walter Moreira Salles chegou a ser ministro da Fazenda do Jango!), contra a qual a esquerda necessariamente se rebelaria, acabando por inviabilizá-las.
O fogo amigo do Brizola foi devastador para seu cunhado, assim como Lula, o criador, em muito contribuiu para desmoralizar e avacalhar Dilma, a criatura. [Como uma grande revista revelou, ele chegava, nos papos informais com políticos e grandes empresários, a compará-la com as aborrescentes teimosas, "a gente dá conselho, dá conselho, dá conselho, mas não adianta, acaba sempre tendo de buscá-la na delegacia"...]
Não demorará muito para Joaquim Levy cair de vez (já é um fantasma arrastando correntes pelos palácios do poder, igualzinho ao Guido Mantega depois da fritura) e para Dilma entrar na fase dos ziguezagues, ora guinando à esquerda, ora voltando à direita, pois quem não aprende com as lições da História, acaba por as repetir.
Celso Lungaretti, jornalista e escritor, foi resistente à ditadura militar ainda secundarista e participou da Vanguarda Popular Revolucionária. Preso e processado, escreveu o livro Náufrago da Utopia. Tem um ativo blog com esse mesmo título.
 
Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.
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