Rio de Janeiro, 14 de Agosto de 2026

Dilma e Lula denunciam golpe de Estado na imprensa internacional

Enquanto Dilma falava à revista ultraconservadora norte-americana Time, Lula denunciava o golpe de Estado a um pool de rádios africanas

Sexta, 29 de Julho de 2016 às 11:43, por: CdB

Dilma afirma que pretende levar adiante, “sistematicamente”, sua luta contra o impedimento e que conhece bem a resistência, pois enfrentou a tortura e o câncer

 
Por Redação - do Rio de Janeiro e São Paulo
  Com a chegada de Agosto, mês decisivo para o processo de impedimento da presidenta Dilma Rousseff, no Senado, ela e seu antecessor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aumentam a presença na mídia internacional para denunciar o golpe de Estado, em curso no país. Dilma é entrevistada pela revista ultraconservadora norte-americana Time para a edição deste fim de semana, enquanto Lula fala a um pool africano de rádios. Ambos se mostram confiantes em conseguir os oito votos que faltaram, no Senado, na abertura do processo e o afastamento da mandatária brasileira.
dilma-time.jpgDilma concedeu entrevista à revista ultraconservadora norte-americana
Time
Na entrevista à Time, Dilma classifica o processo de impeachment como “um golpe parlamentar”, em decorrência de uma atitude política “misógina”. — O fato de uma mulher se tornar presidente dá espaço para uma avaliação que é muito comum, muito estereotipada. Que mulheres são histéricas e, quando não são histéricas, são calejadas, frias e insensíveis. De um lado, fui pintada como uma pessoa fria, dura e insensível. De outro, como uma pessoa histérica — disse Rousseff ao correspondente Matt Sandy. Para Dilma, “o golpe parlamentar é um processo que está afetando as instituições, corroendo-as por dentro e contaminando-as”. Segundo afirmou à revista que chegou a se associar às Organizações Globo, no século passado, durante a ditadura militar, Dilma ressalta que que “a luta” requer “uma arma”: — A arma é o debate, esclarecimento e diálogo. Na matéria, intitulada ‘Brazil’s Dilma Rousseff on Her Impeachment Trial, the Olympics and Zika’ (O Brasil de Dilma Rousseff e seu julgamento de impeachment, das Olimpíadas e da Zika, em tradução livre), a presidenta responde a nove perguntas. A entrevista foi gravada e pode ser assistida adiante: Dilma afirma que pretende levar adiante, “sistematicamente”, sua luta contra o impedimento e que conhece bem a resistência, pois enfrentou a tortura e o câncer: “Lutei e sobrevivi bem”. Quanto aos próximos passos, se mantém confiante: — Todos os países do mundo sobreviveram a crises, muito bem antes de nós. O Brasil tem condições de assumir um papel maior no mundo — afirmou. Quando perguntada se assume responsabilidade pela crise econômica. Rousseff lembra que a crise política “acelerou” os problemas econômicos. — A crise política colocou o Brasil em recessão — disse. Sobre a decisão de não comparecer à abertura da Rio-2016, Dilma ressalta: — Fui eleita presidente com 54,5 milhões de votos. Eles estão me convidando para participar dos Jogos Olímpicos numa posição bastante secundária. Eu não vou interpretar um papel que não corresponde ao meu status presidencial.

Lula apoia Dilma

Em outra entrevista, Lula afirma ao correspondente Wllinton Calasans para rádios africanas de Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe que seu apoio a Dilma segue firme, mas não se furta a apontar um erro capital para a situação política que conduziu sua sucessora ao golpe de Estado, no momento em que manteve a transferência de recursos bilionários às empresas da mídia conservadora. Segundo Lula, Dilma sabotou a iniciativa de regulamentação das comunicações e está pagando um alto preço isso. — Nós tínhamos, em 2010, quando deixei a Presidência, deixado pronto o resultado de uma conferência nacional sobre a regulamentação dos meios de comunicação. Lamentavelmente, não andou esse processo. Ele foi encaminhado ao Congresso Nacional e não se discutiu — disse, sem citar a manutenção do pagamento de cerca de R$ 6 bilhões às Organizações Globo, ao longo de mais de uma década. Hoje, a empresa — que responde a processo por dever mais de R$ 1 bilhão em impostos federais — se destaca como a principal defensora da ruptura democrática, representada na presença do presidente de facto, Michel Temer, no Palácio do Planalto. Segundo Lula, a iniciativa morta na falta de visão política de Dilma Rousseff serviria para que “a imprensa seja efetivamente um instrumento de informação da sociedade, um instrumento de participação da sociedade, em que você não tenha nove famílias dirigindo toda a comunicação no Brasil”. Os marcos legais da mídia evitariam, segundo Lula, que a imprensa se comportasse “como se fosse partido de oposição ao governo”. — Esse não é o papel da imprensa. Então, nós precisamos passar por uma regulamentação e eu posso te dizer uma coisa: é quase que uma questão de necessidade de sobrevivência do Brasil democratizar os meios de comunicação. Faz uma regulamentação. Não precisa pegar o modelo cubano. Pega o modelo inglês, o modelo alemão, o modelo francês, americano, de um país que tenha uma televisão mais sofisticada, mais aberta, mais participativa, aonde o povo possa ter direito de resposta, aonde o povo possa ter o direito de se fazer ouvir. É isso que nós queremos. Ou seja, que a comunicação não seja concentrada na mão de poucas famílias — afirmou. De forma incisiva, Lula ressalta que, no Brasil, “a mesma família tem o rádio, o jornal, tem a revista, a televisão e manda na TV paga, no WiFi, no celular, no diabo a quatro”. — Não é possível. Precisa regulamentar, sim. Eu sei que tem gente que não quer e quem não quer são os donos. Mas a sociedade brasileira quer. Então nós vamos trabalhar muito pra isso. Pode ficar certo que vai fazer parte do programa do PT na próxima campanha eleitoral à presidência da República — promete. Lula também criticou na entrevista, reproduzida no país originariamente pelo blog O Cafezinho, a política externa brasileira, conduzida pelo senador José Serra (PSDB-SP), à frente do Itamaraty, que tem pregado de forma velada a ruptura com o bloco composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (BRICS, na sigla em inglês). — É um equívoco quando as pessoas pensam que o BRICS foi criado pra se contrapor às relações diplomáticas tradicionais existentes no mundo. Os BRICS foram criados para criar novas oportunidades a países que foram crescendo no começo do século XXI e que não participavam de instâncias importantes de decisões, não tinham nenhum peso praticamente nas instâncias já criadas. Ou seja, o que nós queríamos era ter um instrumento político-comercial muito forte pra que a gente pudesse nos ajudar mutuamente. Por isso é que China, Rússia, Índia, Brasil e África do Sul se juntaram na construção do BRICS. Criamos um banco de desenvolvimento que já começa a dar os primeiros sinais de importância na medida que começa a liberar recursos para investimento de infraestrutura — concluiu.
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