Candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff concordou nesta segunda-feira com o seu vice, o deputado Michel Temer (SP), de que o PMDB deve ser considerado protagonista de seu governo, se ela for eleita. No sábado, ao oficializar a aliança com o PT, Temer, que é presidente do PMDB, disse que seu partido não deve ser tratado como coadjuvante na chapa.
– Esta é uma questão que o presidente Lula sempre me deu como diretriz. Não se faz um governo como ministros de primeira, segunda e terceira linha. Todos têm o mesmo estatuto – disse Dilma em entrevista à rádio paulista Jovem Pan.
A candidata petista também rebateu as críticas do PSDB de que não tem histórico para disputar a Presidência. Ela lembrou que já ocupou a secretaria da Fazenda de Porto Alegre, a secretaria de Minas e Energia e Comunicações do governo do Estado do Rio Grande do Sul, o Ministério de Minas e Energia e a Casa Civil do governo Luiz Inácio Lula da Silva.
– Uma coisa é experiência de governo, outra é experiência eleitoral – afirmou.
Aliança
Dilma acrescentou que sabe costurar alianças políticas e que sua campanha provará que "mulher pode" ser presidente do Brasil. No lançamento de sua campanha, na véspera, ela fez discurso programático na sua estreia como candidata oficial na eleição de outubro, a primeira de sua vida pública. Ela e seu adversário tucano, José Serra, partem para a disputa tecnicamente empatados. Ao lado dos partidos aliados e de seu vice, o peemedebista Michel Temer, deu sua principal frase de efeito do dia:
– Chegou a hora de uma mulher comandar o país. Não é por acaso que, depois desse grande homem, o nosso Brasil possa ser governado por uma mulher. Uma mulher que vai continuar o Brasil de Lula, mas que vai governar com a alma e coração de uma mulher – afirmou na convenção do PT que oficializou sua candidatura.
Dilma foi a primeira mulher a comandar o Ministério de Minas e Energia e a Casa Civil. Busca, agora, repetir o feito na sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu criador e fiador político.
– Eu sei buscar a união de forças e não a divisão estéril. Sei como estimular o debate político sério, e não o evenenamento, que não serve a ninguém – afirmou.
Ao contrário do adversário, que na convenção do PSDB, na véspera, subiu alguns decibéis nos ataques contra a gestão petista, a ex-ministra adotou um tom mais conciliatório.
– Não há e não haverá retornos. Nessa campanha, vamos debater em alto nível, confrontar projetos e programas. Vamos mostrar que somos diferentes dos outros candidatos. Mas, depois de eleitos, governaremos para todos os brasileiros, sem exceção – disse.
Apesar da promessa da ministra, setores da campanha petista foram acusados de tentar forjar um dossiê contra Serra, iniciativa publicamente desautorizada pela candidata. Numa reação clara, coube a Lula fazer a defesa, acusando "jogo rasteiro" da oposição.
– Esperamos que os nossos adversários estejam dispostos a fazer uma campanha para discutir programa e não façam jogo rasteiro para discutir dossiê todo dia – disparou. Na véspera, Serra atacara os neocorruptos e o "esquadrão de militantes bancados pelo governo".
Em seguida, pediu tranquilidade à candidata e seu vice.
– O bicho vai pegar – alertou Lula.
Cabo eleitoral mais popular do país, o presidente lembrou ao eleitor que ele e Dilma são a mesma coisa na urna eletrônica. Disse que, pela primeira vez desde 1989, seu nome não está entre os candidatos à Presidência.
– Vai estar um vazio naquela cédula. Para que esse vazio seja preenchido, eu mudei de nome para colocar a Dilma – concluiu.
Eleitorado feminino
A meta de conquistar o eleitorado feminino ficou mais que evidente na convenção do PT na tarde do último domingo. Nos painéis, vídeos e discursos, o tema mulher ganhou destaque estratégico. Fotos de ícones da história do país recebiam a sugestiva inscrição em letras garrafais: "Elas mudaram o Brasil". Um filme rodava em dois telões e mostrava as "marias" do Brasil. "Contra a corrupção, mulher; a favor do Brasil, mulher".
Coube bem no figurino da festa o relato da menina que perguntou a Dilma se mulher poderia ser presidente do Brasil, caso relatado pela candidata no discurso. "Mulher pode", respondeu a petista, seguida de uma pergunta-resposta que agitou a plateia. "Sabe qual é o nome da menininha? Vitória". Dilma usava um terninho vermelho, a cor do partido ao qual se filiou há apenas dez anos. Organizado exclusivamente para a militância petista (cerca de 1.500 convidados), foi um evento mais modesto que a convenção do PSDB em Salvador, realizado na véspera para cerca de cinco mil pessoas.
Ela repetiu diversas vezes seu slogan daqui pra frente: "para o Brasil continuar mudando". Também usou uma frase de efeito que se assemelha ao mote principal de Serra, dono do verbete "o Brasil pode mais".
– Nós queremos, e podemos, fazer mais e melhor. Para o Brasil seguir mudando, é preciso assegurar a estabilidade e continuar as reformas que melhoram o ambiente econômico, em particular a reforma tributária – concluiu.