Rio de Janeiro, 26 de Outubro de 2026

Dignidade à toda prova

A conta não fecha. Quando se pensa um país no qual circulam duas moedas, uma para os nativos e outra para estrangeiros - leia-se: Turistas, visitantes internacionais, trabalhadores de outros países etc; começa-se a perceber a complexidade que é a nação cubana. Para os cidadãos de Cuba, vale a moeda "Peso Cubano". Uma de suas notas mais emblemáticas, disputada por todos os visitantes à Ilha como souvenir está a estampa histórica do rosto de Che Guevara, no verso, e a do próprio comandante, no anverso, em uma plantação de cana-de-açúcar, na qual trabalhou como lavrador. (Leia mais)

Domingo, 29 de Junho de 2008 às 15:41, por: CdB

A conta não fecha. Quando se pensa um país no qual circulam duas moedas, uma para os nativos e outra para estrangeiros - leia-se: Turistas, visitantes internacionais, trabalhadores de outros países etc; começa-se a perceber a complexidade que é a nação cubana. Para os cidadãos de Cuba, vale a moeda "Peso Cubano". Uma de suas notas mais emblemáticas, disputada por todos os visitantes à Ilha como souvenir está a estampa histórica do rosto de Che Guevara, no verso, e a do próprio comandante, no anverso, em uma plantação de cana-de-açúcar, na qual trabalhou como lavrador.

O valor do peso, para o restante do mundo, é praticamente nenhum, diferente do zero absoluto apenas pelas miligramas de papel que o integram. Ainda assim, a celulose da qual é feito tem qualidade duvidável. Para os cerca de 11 milhões de cidadãos cubanos, no entanto, cada peso vale ouro. Com um salário mínimo que corresponde, na moeda utilizada pelos estrangeiros (o peso convertido ou CUC, na sigla em espanhól), a R$ 20,00, a bela cubana que atende à freguesia na Sorveteria Coppélia - uma das mais tradicionais de Havana - cria os gêmeos, tem um completo plano de saúde, escola garantida para ela e seus filhos, aluguel pago e transporte garantido em ônibus confortáveis, alguns deles fabricados no Brasil; além de um plano previdenciário que lhe permitirá, na velhice, ver a morte chegar sem os sobressaltos que muitos velhinhos brasileiros passam à cada espirro do burocrata de plantão no Ministério do Planejamento.

Um aluno brasileiro de Medicina, que convive com outros 5 mil acadêmicos, de 21 países, em uma escola de referência até para os norte-americanos que buscam a Ilha para estudar as mais diversas especialidades do curso, apressa-se em dizer que se sente privilegiado pela oportunidade. Na Faculdade de Medicina, situada no ponto mais próximo de Key West, nos EUA, eles souberam, há pouco, que o governo cubano anda deixando uns barquinhos dando bobeira para aqueles que querem rumar ao capitalismo e faz vistas grossas para os interessados em migrar para a maior economia do mundo. Para surpresa geral, não apenas sobram as bóias como se têm notícia de que muitos cubanos que viviam em Miami têm preferido voltar à casa, com alguns dólares amealhados ao longos de anos de trabalho, para usufruir do famigerado comunismo e seus hospitais bem aparelhados, médicos cuidadosos e do jeito de viver que em muito se assemelha ao dos nossos baianos, até mesmo no sincretismo religioso.

As paredes do casario que compõe La Havana Vieja, desgastadas pelo tempo e o cerco econômico imposto à Ilha pelos vizinhos do Norte, não são capazes de traduzir o sorriso largo dos seus habitantes, ou os corpos saudáveis de homens e mulheres que, sem pressa, cruzam as ruas, praticamente vazias de automóveis, sem aquele semblante estressado que nos é comum nos grandes centros como Rio e São Paulo. A vida aqui passa em um ritmo mais cadenciado e, de novo, a conta não fecha para aqueles que vêem os cubanos como reféns do último bastião comunista do mundo globalizado. O tempo mostra, sem alarde, que um outro mundo é possível aqui em Havana.

Não bastassem os sinais dissonantes entre os números apregoados pela mídia capitalista e a realidade exibida no vigor civil da sociedade cubana, há ainda um outro e mais pujante marco da revolução de 59. Nas ruas do bairro de Vedado, próximo ao Malecón, um velho bem velho, vestido em andrajos, com um toco de puro entre os dedos e alguns tragos de rum na mente, embora apresentasse os traços típicos dos mendigos que lotam as ruas do Centro, aí no Rio, trazia no olhar a dureza dos anos, mas ao ser visto por um bom coração brasileiro, disposto a lhe oferecer alguns dinheiros, talvez o equivalente a mais de um salário mínimo em poucas moedas de peso convertido, ao invés de pedir uma esmola, pergunta ao estrangeiro no que pode ajudar, em que pode ser útil.

É de uma dignidade desconcertante. Uma dignidade à toda prova.

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