Diferenças entre os países podem levar a conflitos internos no Bric
Os países do grupo chamado Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e, agora também a África do Sul – se reuniram pela primeira vez em junho de 2009, na cidade russa de Ecaterimburgo. Desde então, os quatro emergentes vêm se encontrando regularmente, e sua marcante sigla já é vista como uma força político-econômica de peso.
Os países do grupo chamado Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e, agora também a África do Sul – se reuniram pela primeira vez em junho de 2009, na cidade russa de Ecaterimburgo. Desde então, os quatro emergentes vêm se encontrando regularmente, e sua marcante sigla já é vista como uma força político-econômica de peso.
Nesta quinta-feira, os chefes de Estado do Bric têm reunião marcada em Hainan, no sul da China. Pela primeira vez, o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, também estará presente, pois seu país aspira ao ingresso no clube dos mais promissores países emergentes. E assim o Bric se transformará em "Brics".
Diferenças maquiadas
Como em conferências anteriores, o grupo enfatizará seus pontos fortes e os aspectos em comum. Na realidade, contudo, as quatro nações são marcadas por trajetórias diversas, contrapõe Tobias Geyer, especialista em mercados emergentes do fundo de investimentos Ökoworld. O único denominador comum são as respeitáveis taxas de crescimento e o fato de serem nações relativamente grandes.
Claro que há outros emergentes com taxas de crescimento tão pronunciadas quanto as do Bric e com perfis demográficos talvez ainda mais positivos.
– Mas, do ponto de vista do tamanho, os outros não são tão interessantes – comenta Geyer, falando à agência alemã de notícias Deutsche Welle.
Cerca de 40% da população do planeta vive nos países do Brics. Em conjunto, eles são responsáveis por quase um quarto do desempenho econômico mundial e cresceram, em 2010, entre 4% (Rússia) e 10% (China). Entretando, apesar desses fatores em comum, é grande o número de diferenças entre eles, levando a duvidar de uma suposta trajetória comum de sucesso.
– O Brasil e a Rússia dependem muito mais de exportações de matérias-primas do que a Índia e a China, que são até dependentes da importação de matérias-primas – afirma Markus Jäger, analista do Deutsche Bank Research. E a China cresce, sobretudo, graças às exportações de artigos industriais, enquanto na Índia o crescimento é impulsionado em geral pelo mercado interno.
Demografia
A Rússia é a que menos se encaixa no grupo. Apesar de ostentar a maior renda per capita, muitos analistas consideram o país em ocaso, enquanto os demais Bric vão ampliando o próprio potencial de poder. Geyer compartilha essa opinião, embora faça uma ressalva:
– É preciso relativizar, diante dos atuais preços do petróleo. Entre os países do Bric, quem mais lucra com isso é a Rússia.
Por sua vez, Jäger aponta mais uma desvantagem russa: o desenvolvimento demográfico negativo. Há um grande número de idosos dependentes do Estado, porém insuficientes jovens para gerar valor econômico. Um problema que a China também pode vir a enfrentar, devido à política que incentiva só uma criança por casal.
No Brasil e na Índia, em contrapartida, cresce uma classe média que não apenas produz, como também consome em grande escala, assegurando assim a demanda interna.
Nos quatro países a política tem por hábito interferir em questões econômicas. No entanto, Pequim e Moscou controlam bem mais do que Brasília ou Nova Delhi. Na China, os maiores bancos e indústrias pertencem ao Estado. Na Rússia, ele controla sobretudo a importante indústria petroleira, detendo mais de 70% do conglomerado Rosneft.
Conflito monetário
Todas essas diferenças não ficam sem consequências, afirma Jäger, do Deutsche Bank Research.
– Os países do Bric divulgam comunicados afirmando que concordam em muitos aspectos. Mas também há uma quantidade de pontos de atrito de natureza econômica entre eles – disse.
Um exemplo: as exportações brasileiras se ressentem no momento do real relativamente forte, cuja cotação em relação ao dólar norte-americano duplicou nos últimos oito anos. Enquanto isso, a China mantém sua moeda em baixa por meios artificiais, acusa o Brasil.
Esse conflito monetário já levou até mesmo a Brasil a se distanciar do clube nessa questão, buscando contato com o mais importante adversário dos Brics: os Estados Unidos. Assim, não é de espantar o anúncio de Pequim, antecedendo o encontro em Sanya, de que se recusaria a discutir assuntos monetários.
Presente de grego?
Tais conflitos tendem a se acirrar no futuro, quando a África do Sul pertencer oficialmente ao clube dos emergentes, pois o país difere ainda mais dos outros quatro. Seu crescimento econômico é inferior ao russo, limitando-se a 3% ao ano; com 50 milhões de habitantes, ela não passa de uma anã se comparada aos demais países.
Há indicadores de que, ao integrar a África do Sul, os membros do Bric visam menos o país em si do que o continente africano como um todo. Quer para saciar seu enorme apetite por matérias-primas – o caso da China –, quer para também lucrar com a extração desses recursos – o que se aplica ao Brasil.
E é justamente isso o que deixa tantos sul-africanos desconfiados. Até mesmo o vice-ministro de Desenvolvimento Econômico, Enoch Godongwana, mostrou-se cético: para ele, ainda não está claro se o comprometimento com os Brics "serve aos interesses da África do Sul ou os prejudica".
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