O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) divulgou no último fim de semana um relatório em que aponta mudanças ocorridas na vida dos trabalhadores brasileiros após a implantação do Plano Real em 1994.
O estudo divide o período dos últimos 10 anos em dois ciclos: um de prosperidade, que durou apenas um ano, até 1995, e outro, de dificuldades, com piora na renda, no emprego e nas condições de vida dos trabalhadores.
O período considerado de prosperidade é, segundo o relatório, resultado de um aumento real do salário mínimo - superior a 22%. Esse acréscimo levou a uma melhor distribuição de renda e uma diminuição dos níveis de pobreza.
Ainda em 1995, passada a fase inicial, a política econômica adotada começou a apresentar problemas. Para o Brasil manter uma moeda forte, com 1 real equivalendo a 1 dólar, era preciso manter uma constante entrada de capitais externos para o financiamento de nossa dívida pública.
Crises internacionais decorrentes do fato de países como o México e Rússia não conseguirem honrar seus compromissos financeiros fizeram com que os investidores estrangeiros abandonassem as nações menos desenvolvidas, que ofereciam maiores riscos a suas aplicações.
A elevação das taxas de juros nesses países foi a saída encontrada para evitar essa fuga de capitais, bem como para manter uma política de sobrevalorização das moedas locais - no Brasil, por exemplo, foi isso que possibilitou o rápido aumento do consumo de produtos importados, com a difusão das "lojas de 1,99" por todo o país. Com os juros altos, os financiamentos ficam mais caros e toda a atividade econômica diminuiu. Pouco depois, o país teve que recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e tomar mais empréstimos para honrar sua dívida.
"A partir daí, temos um processo de queda da renda da população: os salários mais elevados foram os que mais sofreram com o Plano Real. Com isso, você tem um processo de queda dos rendimentos médios", avalia o economista do Dieese Paulo Roberto Arantes Vale, analista dos dados do relatório. Segundo ele, só agora em 2004 ressurgem sinais de recuperação da atividade econômica.
O estudo aponta ainda uma série de desafios que o governo atual precisa enfrentar. Entre eles, a redução do valor da cesta básica, que praticamente dobrou nesses dez anos (97% de aumento). Também considera necessário combater o aumento da dívida interna (grosso modo, os títulos que o governo emite no mercado para conseguir dinheiro e financiar seus compromissos) e externa (o que o governo toma emprestado fora do país).
Desemprego e queda de renda
A taxa de desemprego é outro ponto crítico, segundo o documento. Na região metropolitana de São Paulo, o número de desempregados dobrou nesse período. Há dez anos, esse índice não ultrapassava os 11% da população economicamente ativa. Em 2004, o número de desempregados nessa mesma região chegou a quase 20%.
O aumento do desemprego foi acompanhado pelo aumento da jornada de trabalho para quem conseguiu manter seus cargos. Os trabalhadores de Recife foram os que mais sofreram com essa elevação no número de horas trabalhadas, segundo o relatório.
Entre 1998 e 2003, eles passaram, em média, a trabalhar 46 horas semanais, cinco horas a mais do que os trabalhadores do Distrito Federal. Nesse mesmo período, os rendimentos médios de todos os brasileiros economicamente ativos reduziram em cerca de 15%.
A distribuição da renda também piorou. Segundo o relatório, há dez anos, de cada R$10 que o país produzia em riquezas, R$ 4 se destinavam ao pagamento de salários. Em 2002, eram apenas R$3,60.
Para o Dieese, o Plano Real também prejudicou as negociações salariais entre os trabalhadores e seus patrões. A partir de 2001, apenas 58% delas conseguem repor aquilo que os salários perdem para a inflação. Em 1995, 85% dos reajustes salariais registrados garantiram aos trabalhad