Estudantes, skatistas, rodas de violão, bandeiras de Bob Marley e muito "No, woman no cry...". O clima da manifestação pela descriminalização e legalização da maconha, que reuniu cerca de 200 pessoas no vão livre do Masp, em São Paulo, era de tranqüilidade. O evento marcou o Dia Nacional da Maconha, uma data sem simbolismos, mas que pretende transformar o dia 1o de novembro num dia de luta pela legalização da droga.
Além de São Paulo, Salvador, Brasília e Porto Alegre também realizaram passeatas pacíficas a favor da Cannabis sativa.
Organizada inteiramente pela Internet, via e-mails e um site desenvolvido especialmente para o dia, a manifestação foi idéia de dois estudantes e depois acabou se espalhando pelo ciberespaço. "A passeata saiu do nosso controle, muita gente foi se envolvendo. É um sonho que está virando realidade", conta Eduardo Junior, de 18 anos, um dos idealizadores. Muitas das pessoas que organizaram as atividades do Dia Nacional da Maconha sequer se conheciam pessoalmente. Mas tinham o mesmo objetivo. "Queremos mostrar nossa insatisfação porque ainda existe muito preconceito contra o usuário", explica Eduardo.
A organização pediu apenas que os manifestantes não levassem maconha para o Masp para evitar conflito com a polícia. Cerca de 30 policiais e três viaturas monitoravam a concentração do público. "Se alguém usar drogas aqui vai ser preso", advertiu o tenente PM Rogério, que também ficou sabendo do acontecimento pela internet. "Estamos analisando cartaz por cartaz e não vamos permitir a apologia ao fumo nem qualquer violência", afirmou. Mas o próprio policial admitiu que aquele tratava-se de um protesto pacífico.
Briga antiga
A legalização da maconha é debate antigo no país. O que pediam os manifestantes deste sábado (1), além da liberação de seu consumo, era o emprego da planta nos mais diversos usos a que a Cannabis já se mostrou capaz, da medicina à fabricação de combustíveis e papel. "A semente da maconha é uma das mais nutritivas do mundo, ficando atrás apenas da soja", diz Fábio Knopf, analista de marketing.
Outro benefício da legalização seria a diminuição da criminalização de quem consome a droga. Atualmente, a legislação não diferencia usuário de traficante de acordo com a quantidade de maconha encontrada sob sua posse, o que permite que a polícia enquadre prisioneiros conforme compreender as circunstâncias do ato. "Já houve casos de usuários enquadrados como traficantes com 1,5 grama, ao mesmo tempo em que algumas pessoas presas com 500g foram enquadradas como usuárias", conta Knopf.
Para o professor de história da Universidade de São Paulo, Henrique Carneiro, também presente na manifestação, a legalização tiraria um grande contingente do sistema penitenciário, que poderia ser usado para os verdadeiros criminosos. "Qualquer jovem que queira usar maconha hoje em dia tem que entrar em contato com o mundo do crime", explica.
Carneiro não é a favor da legalização apenas da cannabis sativa, mas de todas as drogas. Para ele, este é um princípio democrático. "O ser humano tem que ser livre para ingerir o que quiser. Do ponto de vista da saúde pública, o álcool e o tabaco são as drogas mais daninhas e são autorizadas", diz. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cinco milhões de pessoas morrem por ano no mundo de causas relacionadas diretamente ao consumo do tabaco. No Brasil, este número é superior a 200 mil mortes.
Legalizar a maconha seria o primeiro passo, que, no entanto, ainda parece distante. "Sabemos que acreditar nisso agora é utópico. Estamos plantando uma semente para daqui a 30 anos, mas uma hora teríamos que começar", diz Knopf.
Os organizadores farão agora um abaixo-assinado pedindo a descriminalização e legalização da maconha que será entregue ao poder público. Uma das faixas da manifestação dizia: "O que mais lhe preocupa? THC ou FHC? Chega de sermos um país hipócrita! Legaliza Lula".