Estedomingo, por anteceder ao dia vinte de junho, é o Dia Nacional do Migrante, segundoo calendário pastoral da CNBB.
Istosignifica que a Igreja faz questão de colocar a realidade migratória nocontexto do domingo, dia destinado à celebração do mistério cristão. Colocado odomingo como referência, fica fácil ampliá-la para uma semana, como de fato setornou tradição do Serviço Pastoral dos Migrantes, incumbido pela CNBB paraacompanhar de perto os problemas vividos pelos migrantes em nosso país, nosdiversos contextos em que se encontram. Em cada ano, precedendo o dia 20 dejunho, se realiza a "Semana do Migrante”.
Quandoa celebração é de um dia só, a data se limita a ser uma efeméride vazia, comoexiste dia para tudo no calendário da ONU! Mas quando se propõe uma semana, épara encarar a realidade com mais atenção, entender o que ela nos diz, e tomaras providências que ela nos sugere.
Quea realidade migratória é complexa se comprova pelo fato da própria bíblia terassumido um paradigma migratório como sujeito representativo da humanidade.Seja individualmente, na pessoa de Abraão. "Meu pai era um arameu errante”, dizo livro do Deuteronômio (26,5). Seja coletivamente, na experiência do povo deIsrael, que forjou sua identidade nacional na experiência da penosa e longamigração através do deserto, saindo da escravidão do Egito, em busca de sualibertação humana e espiritual.
Arealidade migratória acaba expressando a problemática humana, que perdura aolongo da história.
Entretantas facetas do problema migratório, sempre inquietou uma contradição queperdura e se acentua cada vez mais. No mundo globalizado de hoje, o sistemaeconômico mundial faz questão de defender, e de exigir, a absoluta liberdade demigração dos capitais, enquanto forja obstáculos cada vez maiores para impedira migração dos trabalhadores.
Nãoé nenhuma indiscrição perguntar por que. Pois se temos o dever de dar a razãode nossas esperanças, como São Pedro nos anima a fazer, temos também o direitode saber as razões de nossas desgraças.
Olhandoa grande facilidade que tem hoje o capital, sobretudo o financeiro, de buscaras aplicações que mais lhe garantam dividendos, seja onde for, em qualquerbolsa de valores ou em qualquer banco do mundo, compreendemos que ele se movena busca do lucro maior que ele pode auferir. Assim, a grande migração decapitais especulativos, tem a cândida e evidente razão do lucro, que os move edireciona.
Aopasso que a tenaz, e cada vez mais sofisticada política de coibir os fluxosmigratórios humanos, se entende a partir do objetivo de impedir que maispessoas venham auferir as vantagens do sistema econômico globalizado.
Assim,no topo da globalização, encontramos a mesma tensão das origens do capitalismo:quanto menos se remunera o trabalho, mais dividendos sobram para o capital.Estamos ainda no mesmo mundo.
Comuma diferença a ser advertida com seriedade. Tempos atrás os prejudicados eramos trabalhadores, considerados singularmente. Agora os prejudicados podem seros países. Pois com a mesma facilidade com que vêm, os capitais podem sair deum determinado país, quando eles não têm vais vantagens de lá permanecer. Estecenário começa a se desenhar quando se verifica uma forte tendência àdesnacionalização da indústria, e também da agricultura, e em estágio maisgrave quando se acentua o processo de desindustrialização de um determinadopaís.
Émuito conveniente que o Governo comece a fazer as contas, para verificar aquantas anda nossa dependência externa, e em que medida se acentua o processode desindustrialização do Brasil.
Assim,os migrantes continuam cumprindo sua saga, mas também seu indispensável serviçode alerta sobre os rumos da humanidade. Eles continuam testemunhando que omundo ainda não entrou nos eixos da fraternidade.