Rio de Janeiro, 10 de Setembro de 2026

Dez mil vão às ruas do Haiti a favor de Aristide

Sexta, 05 de Março de 2004 às 16:14, por: CdB

Cerca de dez mil simpatizantes do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide fizeram uma passeata entre as favelas de Porto Príncipe e a embaixada dos Estados Unidos no Haiti. Eles denunciaram a ocupação do país e pediram a volta do líder exilado.

Xingando os marines norte-americanos e chamando o presidente George W. Bush de terrorista, os manifestantes demonstraram ódio contra a fuga de Aristide para a África, há cinco dias, pressionado por uma sangrenta rebelião e pela falta de apoio dos EUA.

Muitos manifestantes agitavam bandeiras haitianas e vestiam camisetas com a foto de Aristide. Centenas levantavam a mão com os cinco dedos espalmados, gritando "Cinco anos para Aristide", em referência ao mandato que ele abandonou após três anos.

Marines equipados para batalha vigiavam a embaixada. No alto do telhado do prédio, soldados assistiam impassíveis.

A capital já está sendo vigiada por soldados norte-americanos e franceses, além de policiais locais. Veículos militares dos EUA percorrem as ruas com metralhadoras e lançadores de foguetes, exigindo que rebeldes e simpatizantes de Aristide deponham as armas.

Os seguidores do ex-presidente, um padre católico que com seus sermões ajudou a derrubar a ditadura da família Duvalier na década de 1980, passaram a semana relativamente quietos, embora chocados com a saída do primeiro presidente livremente eleito em 200 anos de história haitiana.

Esses ativistas se concentraram basicamente em Cité Soleil, La Saline e outras favelas de Porto Príncipe, enquanto os rebeldes percorriam as ruas caçando os "chimères" (grupos armados pró-Aristide). Mas, à medida que os rebeldes se retiraram da cidade, cumprindo ordens de seu líder, Guy Philippe, os seguidores de Aristide passaram a prometer manifestações diárias até que o presidente volte.

Ocupação estrangeira

Os manifestantes culpam a elite nacional e os governos da França e dos Estados Unidos pelo que chamam de "ocupação estrangeira" no Haiti. "A burguesia se uniu à comunidade internacional para ocupar o Haiti e se livrar do presidente Aristide", gritou um manifestante. "A burguesia nunca fez nada por nós, as massas. Agora levaram nosso presidente. Se Aristide não voltar, a vida ficará infernal aqui."

Cinco dias após a fuga dele, um novo conselho tripartite, escolhido por governo, oposição e países estrangeiros, começou a trabalhar. Leslie Voltaire, que sob Aristide ocupava o Ministério para Haitianos Vivendo no Exterior, foi nomeado pelo governo. A oposição escolheu o ex-senador Paul Denis, e a comunidade internacional indicou Adama Guindo, representante da Organização das Nações Unidas (ONU).

Esse triunvirato terá a missão de selecionar em uma semana os sete membros do 'Conselho dos Sábios', que por sua vez vai escolher um novo primeiro-ministro e começar a montar um governo. O Parlamento haitiano está praticamente inativo desde o começo de janeiro. Só alguns poucos senadores ainda têm mandato a cumprir.

Haitianos e estrangeiros estão às voltas com o processo de instalar o governo do presidente interino Boniface Alexandre, que segundo a Constituição precisa ser ratificado pelo Legislativo. Hoje, ainda não está claro quando acontecerá a posse formal dele.

O país já conta com cerca de 2 mil militares norte-americanos, franceses, chilenos e canadenses, segundo os comandantes da força autorizada pela ONU para restaurar a ordem no Haiti.

Mais de cem pessoas morreram na rebelião, que começou há um mês e se espalhou pelo país. Aristide afirma que foi seqüestrado pelos EUA no domingo e obrigado a se exilar na República Centro-Africana, acusação que Washington nega, mas que têm respaldo entre os simpatizantes do ex-presidente.

No bairro de Bellair, reduto de seguidores de Aristide em Porto Príncipe, as ruas estão cobertas de vidros e destroços e há forte cheiro de esgoto. Moradores pediram que as tropas estrangeiras protejam o bairro contra a ação de atiradores que atacam a área todas as noites.

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