Um evento intenso e com enorme participação popular marcou oPiquiá, distrito industrial de Açailândia/MA, um dos lugares-símbolo dosimpactos da cadeia de mineração e siderurgia do Programa Grande Carajás. Osbispos do Maranhão e os dez mil participantes encerraram esse evento com umcorajoso e contundente documento. Veja a seguir...
A 11ª Romaria de Terra, Água e Direitos do Maranhão mostroumais uma vez uma variedade de situações de agressão, de sofrimento e dedestruição pelos quais passam o ambiente e a população neste Estado. Arealidade que nós, romeiras e romeiros constatamos em Piquiá, nos fez lembraroutras situações vividas e contrárias ao Projeto que reconhecemos como divino,como bíblico-evangélico: uma terra onde corre leite e mel sem faltar (Ex 3, 8)e que traz vida em abundância (Jo 10, 10).
Em Piquiá, podemos ver com os nossos próprios olhos apoluição do ar causada por empresas siderúrgicas, as enormes áreas plantadascom eucaliptos, a exploração do trabalho de operários descartáveis quando aempresa os considere supérfluos e a expulsão forçada de moradores antigos eatingidos pela poluição. Nos lembramos de situações parecidas em que grandescriadores e gado baniram famílias camponesas, onde a plantação de cana, soja ealgodão expropriam quilombolas e lavradores de suas plantações, ou dasmadeireiras que acabam com as matas das quais vivem as populações mais antigas desteEstado: os indígenas em sua multiplicidade de culturas e famílias. A maiorriqueza de uma nação é a sua população, e esta riqueza é para ser preservada evalorizada, nunca explorada.
Todas estas situações são resultado de um grande projetoelaborado e implantado com a anuência e sob a coordenação de um poder estatalque se impõe à população à qual deveria servir. Com mentiras, falsas promessase ilusões mirabolantes, os donos do poder político e econômico defendem umsistema que apenas serve para acumular riquezas nas mãos de poucos enquanto amassa continua empobrecendo: os ricos ficando mais ricos a custo dos pobrescada vez mais miseráveis (João Paulo II – Puebla 1979).
Este sistema, que não serve à população, deve serdesmontado, deve ser destruído (Apoc. 11,18c) e substituído por outro comvalores que defendemos por serem evangélicos: equidade, partilha, fraternidade,respeito à Criação.
Conhecemos alternativas. Sabemos que é possível reconstruira nossa sociedade em outras bases. É possível produzir alimentos sem uso devenenos. Projetos industriais, imprescindíveis para o bem estar das pessoas,devem respeitar dimensões suportáveis pelo ambiente natural e humano em queforem inseridos. Novos padrões de consumo se impõem, se quisermos garantir paraas futuras gerações um planeta e um Maranhão habitável e fonte de felicidade.Riqueza não é sinônimo de felicidade, como vida simples e feliz se contrapõe àssituações de miséria em que vive a maioria da população maranhense.
O desenvolvimento econômico não pode prescindir-se dodesenvolvimento humano, antes é um meio para que este fim possa ser atingido.
O sonho de uma vida feliz, humanamente digna e respeitadorado ambiente é possível, se a gente quiser. É possível porque Deus é o nossoparceiro nesse projeto que também é dele. Para isso, é necessário todos osatingidos pelo modelo de exploração dominante, indígenas de todas as tribos eculturas, quilombolas e comunidades negras, trabalhadores rurais e operários dacidade, moradores de periferias e favelas, se organizarem e se juntarem emtorno de bandeiras comuns. A busca do Reino que Jesus veio anunciar requer nãonos curvar diante da imposição do sistema que domina nossas vidas, masresistir, nos manifestar, apoiar as lutas que irmãos e irmãs enfrentam e sermoscapazes de construir um projeto novo. E, sobretudo, nunca perder a fé e aesperança na promessa: o Reino de Deus e sua Justiça são nossa herança.
Um novo céu e uma nova terra estão a nosso alcance, porque"milagres maiores” seremos capazes de realizar.