Rio de Janeiro, 13 de Maio de 2026

Dez lições que a crise ensina

Por Emir Sader - A profundidade e a extensão da crise atual podem ser reveladas pelo desmentido a certas supostas verdades, que tentam ser incutidas pela sua reiteração na cabeça das pessoas pelos grandes grupos monopolistas da mídia privada. (Leia Mais)

Terça, 16 de Agosto de 2005 às 20:48, por: CdB

Eis algumas inverdades que a crise atual permite desnudar:

1. O governo Lula é o governo da nova direita

Quem fazia afirmações como essa não consegue explicar porque a direita, unida, sem que nenhum de seus setores fique de fora, ataca violentamente o governo Lula. Quem amalgama os governos FHC e Lula não consegue entender porque a direita unida prega o retorno do bloco PSDB-PFL. Política externa, política educacional, política cultural - são pelo menos três elementos de ruptura com a política liberal e pró-estadunidense do governo FHC. E, além disso, o que a direita unida deseja não é tanto a derrota do governo Lula, mas a derrota da esquerda, com projeções históricas, de longo prazo. As posições ultra-esquerdista também disseram que a URSS tinha se tornado uma potência capitalista - e até mesmo imperialista -, similar ou até pior que os EUA, o que não explica a necessidade de derrubar o regime soviético para que o capitalismo triunfasse na Rússia.

2. O crescimento econômico garantirá a reeleição

Se é certo que a expansão econômica perdeu fôlego e que o crescimento sustentado era mais uma balela da equipe econômica, já que se tratava de uma recuperação cíclica de fôlego curto, ainda assim não se pode dizer que vivemos uma conjuntura de crise econômica. No entanto, pelo caráter seletivo da expansão, sustentada centralmente na exportação e no consumo de luxo, seus efeitos não se traduzem em melhorias sociais para a massa da população, que não sente que as políticas governamentais estejam a seu favor, enquanto o grande capital deseja ardentemente a manutenção do modelo econômico. Se fosse necessário um exemplo, a economia peruana segue crescendo, mas a popularidade de Alejandro Toledo está em 8%. Para demonstrar que não é qualquer expansão que melhora a vida do povo.

3. A crise revela o caráter democrático da mídia brasileira

Esta é uma das maiores falácias propaladas na crise. A ditadura da mídia monopolista privada é e continua a ser um obstáculo para que o Brasil seja uma democracia. A unanimidade da grande imprensa, escrita e televisiva, revela o totalitarismo que a direita impõe à formação da opinião pública. Basta ver como o processo - apresentado à Justiça pela Procuradoria Geral da República, consubstanciado em provas claras dos delitos - contra Henrique Meirelles, incluindo enriquecimento ilícito, sonegação do imposto de renda, entre outros crimes, não foi objeto de nenhuma investigação por parte da grande imprensa monopolista privada, para quem Meirelles é um "darling". É uma forma de atuação totalmente distinta se comparar sua atuação em casos de acusações contra algum membro do PT ou de alguma outra força de esquerda.

4. As CPIs são instrumentos eficientes de apuração e punição dos culpados por corrupção

Trata-se de espetáculos televisivos, de exibicionismo daqueles quem sabem que estão sendo focados pelas câmeras. Utilizam a verborragia demagógica para fazer teatro para a TV, sem que os trabalhos tenham nenhum rigor de apuração. O episódio do oferecimento da ex-secretária de Marcos Valério para pousar nua para a Playboy, segundo ela para financiar sua campanha eleitoral como candidata do PSDB ou do PFL, revela de corpo inteiro o caráter exibicionista dos 15 minutos de glória dos protagonistas das CPIs.

5. A corrupção e a imoralidade são exclusivos da direita

As denúncias revelam, de forma eloqüente, que dirigentes do PT praticaram sistematicamente atos de corrupção, seja para comprar votos aliados, seja para benefícios próprios, materiais ou de influência pessoal e política. É certo que os votos comprados serviram para beneficiar projetos da direita, mas foram crimes cometidos por dirigentes do mais importante partido de esquerda do Brasil. A vigilância ética, portanto, tem de ser uma atitude permanente da esquerda, sobre tudo e ainda mais sobre si mesma.

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