Rio de Janeiro, 29 de Setembro de 2026

Deus, Cristo e os Pobres. Libertação e salvação na fé à luz da Bíblia

Sexta, 15 de Julho de 2011 às 08:26, por: CdB

Como se pode perceber ao longo deste livro,o conflito na Teologia da Libertação baseia-se num pressuposto fundamental queambas as partes reconhecem, mas do qual tiram conclusões contrárias. Se o um eo mesmo Jesus Cristo é verdadeiramente ser humano e verdadeiramente Deus, háduas possibilidades. Ou ele é visto prioritariamente como o Deus que permaneceutranscendente e que salva (assim Clodovis Boff), ou ele é visto como aquele serhumano em que Deus se tornou o irmão de todos, especialmente dos pobres, passoua ser igual a eles e assim os salvou (assim os teólogos da libertaçãocriticados por Clodovis Boff).

Wess, Paul: DEUS, Cristo e os Pobres. Libertação eSalvação na Fé à Luz da Bíblia. Apresentação: João Batista Libanio.Tradução do alemão: Monika Ottermann. São Bernardo do Campo: Nhanduti Editora,2011. www.nhanduti.com. 23 x 16 cm, 208p. ISBN 978-85-60990-12-2.

Segundoessa doutrina tradicional, mas não bíblica, Deus tornou-se ser humano para queo ser humano se tornasse Deus. Isso impossibilita explicar a transcendência deDeus e a importância que a fé nesse Deus maior possui para a esperança nasalvação e para a moldagem de uma prática social libertadora. A teologia podeser substituída por uma antropologia "platonizante” idealista, na qual Deusainda é sinônimo para o futuro do ser humano, mas já não é o fundamento maiorpermanente e o Senhor dele. Por isso, em sua crítica a essa "viradaantropológica” na teologia moderna (C. Boff 2007, 1009), Clodovis Boff percebealgo que é correto, mas não vai suficientemente longe. Ele assume os mesmospressupostos dogmáticos em vez de questioná-los e corrigi-los numa releitura dacristologia bíblica. É sintomático que ele se refira somente a uma"transcendência da fé” ou mais generalizadamente à "transcendência” que é a"parte menor e menos relevante” na Teologia da Libertação (ibidem, 1005), masnão da transcendência de Deus acima da criação e dos seres humanos.

ODeus transcendente e o ser humano a ser salvo não podem se tornar iguais, nemmesmo por graça. Isto se aplica também a Jesus Cristo. Por isso, Jon Sobrinoenveredou em sua cristologia e soteriologia pelo caminho certo, na medida emque rejeitou a transferência de atributos divinos ao ser humano Jesus Cristo.Ele permaneceu contraditório, porém, na medida em que supôs ao lado desse Cristohumano um Cristo divino, segundo o dogma de Niceia (cf. Cap. 5). Umareorientação do pensamento nesse ponto permitiria também uma melhorconsideração das possibilidades humanas limitadas e da inevitabilidade dosofrimento numa criação que é limitada e ainda está passando pelas dores doparto. Uma volta para a visão bíblica da transcendência inabolível de Deustambém acima de Jesus Cristo, bem como da salvação através dareconciliação com a finitude da existência a caminho para a plenificaçãoesperada de Deus poderia provavelmente ajudar a solucionar a "contenda entreirmãos” na Teologia da Libertação. Além disso, seria um grande desafio para omagistério que também precisaria mudar seu pensamento nessas questões. Essavolta para a fé bíblica e sua releitura seria pelo bem da teologia e da igreja,e assim também e principalmente pelo bem das pessoas pobres. A libertação delasé a preocupa­ção compartilhada por ambas as partes do conflito e oxalá as uniráem breve.

Afinal,a opção pelos pobres não é apenas o tema de uma "teologia de segunda ordem”,separada como um campo parcial secundário ou uma mera aplicação de uma"teologia de primeira ordem” que iniciaria com Deus e a partir da qual todo oresto poderia ser deduzido. Esta é a posição de Clodovis Boff criticada porWeckel e Aquino Júnior (Weckel, 13-16; Aquino Júnior, 82-104). Deus é epermanece transcendente para o ser humano – também para Jesus Cristo – e nessesentido precisa ser o "tema” mais importante dentro da teologia que é uma.Por isso, podemos falar dele somente quando partimos do ser humano einterpretamos, retroativamente e no modo de busca, nossas experiências emrelação a Deus como o fundamento de nossa existência. Se passarmos ao largo dosseres humanos concretos e da história da salvação, não teremos acesso a Deus.Emprestando as palavras de Júnior: "O Deus bíblico revela-se como Deus dospobres e dos oprimidos (embora ele seja mais do que isto)” (Aquino Júnior,99s). Por isso não existe, no sentido bíblico-cristão, uma "teologia de primeiraordem” ou uma "teologia da fé” (cf. C. Boff 2007, 1006) antes ou acima daTeologia da Libertação como uma "teologia de segunda ordem” que tratasse dosseres humanos e preferencialmente dos pobres. Existe apenas uma única teologia,e esta sabe da transcendência de Deus e parte por isso de modohistórico-concreto das experiências humanas, especialmente aquelas que setornaram possíveis graças à vida e obra de Jesus e que devem ser testemunhadasnuma prática adequada – numa prática libertadora.

[inWess, Paul: DEUS, Cristo e os Pobres. Libertação e Salvação na Fé à Luz daBíblia. Apresentação: João Batista Libanio. Tradução do alemão: MonikaOttermann. São Bernardo do Campo: Nhanduti Editora, 2011. www.nhanduti.com, p. 196-198].

Sobre o autor:

PaulWess, nascido em 1936 em Viena (Áustria), estudou filosofia e teologia emInnsbruck (inclusive com Karl Rahner), onde obteve em 1961 seu doutorado emfilosofia. Ordenou-se presbítero em 1962 e trabalhou em Viena como vigário paroquiale professor de ensino religioso. Após um tempo de reorientação e novos estudos(1965/1966), assumiu –inicialmente numa equipe de padres– o trabalho numaparóquia recém-fundada em Viena (Machstrasse - Rua Mach), com o objetivo deformar comunidades de base e fazer experiências concretas de uma igreja communio.

Em 1968, obteve odoutorado em teologia pela Universidade de Innsbruck com a tese "Como falar deDeus? Um debate com Karl Rahner” (Graz, 1970), e em 1989 a habilitação para oensino universitário da teologia pastoral com a tese "Igreja de Comunidades –Lugar de fé. A prática como fundamento e consequênciada teologia” (Graz, 1989). Liberado para o ensino universitário em 1996, foi oprimeiro professor convidado em Graz (Áustria) e em Würzburg (Alemanha) e,desde 2000, é professor de Teologia Pastoral na Universidade de Innsbruck. Em1992 participou como membro da delegacia austríaca do 8º Intereclesial dasCEBs, em Santa Maria.
Nos países de falaalemã, Paul Wess é um dos principais defensores das comunidades de base, darevisão dos conteúdos da fé e da reestruturação da Igreja Católica segundo osprincípios bíblicos de fraternidade e sororidade ("Geschwisterliche Kirche”). Seus numerosos ensaios e artigos deramorigem a vários livros e coletâneas, alguns deles já "verificados” peloVaticano; mas, por enquanto, ainda não objetos de notificações.
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Edições digital e impressa