Temer também é apontado como integrante de uma quadrilha na delação de Marcelo Odebrecht. Ele reuniu a base aliada em um último esforço para votar reformas que retiram direitos dos trabalhadores
Por Redação - de Brasília
Pressionado por um cenário político cada vez mais conturbado, devido às investigações da Operação Lava Jato, o presidente de facto, Michel Temer, pediu na noite passada a parlamentares aliados e ministros que tentem manter o cronograma de votação da reforma da Previdência no Congresso. A proposta corre risco de atraso após a abertura de inquérito contra dezenas de integrantes do governo e do Congresso, com base nas revelações de delatores da Odebrecht.
Segundo relato à agência inglesa de notícias Reuters, de uma fonte presente ao encontro, sob condição do anonimato, Temer defendeu que todos se empenhem para “mostrar normalidade” no Brasil. Três pessoas presentes à reunião disseram que o presidente, ou qualquer outro convidado, evitou falar sobre delações da empreiteira.
Negociações
Presidente da comissão especial da reforma da Previdência na Câmara, Carlos Marun (PMDB-MS) estava entre os convivas. Ele disse, na saída do encontro, que Temer se inteirou das últimas tratativas sobre pontos da proposta discutidas entre o relator da matéria, Arthur Maia (PPS-BA), e a equipe econômica.
Na reunião, ficou acertado que o relator vai apresentar, em café da manhã no Palácio do Alvorada, nesta terça-feira, o parecer para o presidente e a base aliada do governo. Segundo Arthur Maia, o objetivo será mostrar claramente que as negociações com o governo foram capazes de "absorver tudo" que as bancadas defenderam de realização de mudanças.
Reformas
Em seguida, haverá um encontro entre relator, Temer e senadores da base para lhes mostrar o que foi mudado da proposta original do governo em relação ao texto que está prestes a ir à votação na Câmara. Em seguida, o presidente da comissão especial abrirá a reunião do colegiado para que Arthur Maia faça a leitura do seu parecer, no início da tarde de terça-feira.
A expectativa do Palácio do Planalto, segundo a fonte presente à reunião, é que se consiga 80% dos votos para aprovar a proposta na comissão especial depois das modificações feitas pelo relator nos últimos dias. A intenção do governo é votar o texto do relator na comissão na próxima semana, a partir de 25 de abril, e apreciá-lo no plenário da Câmara em primeiro turno até a segunda semana de maio. O Planalto mantém o discurso de votar a reforma no Senado até meados de julho, antes do recesso legislativo.
— Não existe nem possibilidade nem desejo de mudança desse calendário. Eu estou cada vez mais convencido de que vamos aprovar essa reforma por uma margem elástica de votos — prevê Marun. Na saída do encontro, ele acrescentou que as investigações da operação da Lava Jato não vão "atrapalhar" o andamento da reforma.
Inquérito
Também ao final da reunião, Arthur Maia disse não ver "nenhum tipo de mudança”. Referia-se ao andamento da reforma após a divulgação dos detalhes da delação da Odebrecht.
— Temos votado na Câmara dos Deputados inúmeras reformas, não é a primeira e não será a última, e temos visto paralelamente acontecer no país todo o processo judicial da Lava Jato. Não vejo de forma nenhuma essa coisas se entrelaçando — destacou.
Alvo de inquérito a partir de delação de ex-executivos da Odebrecht, o relator da reforma negou estar preocupado.
— Eu pessoalmente? Por que haveria de estar? Não tenho nenhum motivo para isso. Estamos caminhando no sentido de fazer a aprovação dessa reforma — desconversou.
Modificações
Arthur Maia preferiu não revelar detalhes das cinco modificações que ele já concordou em fazer. Foi pressionado por parlamentares e acertou com o governo. São eles: regras de transição para o novo regime de previdência, pensões, aposentadoria de professores e policiais, benefício de prestação continuada e regras para trabalhadores rurais.
O relator afirmou que não as anteciparia aos jornalista em respeito aos colegas parlamentares. Disse apenas que era a favor de se manter igual a idade para homens e mulheres se aposentarem. Falou após ser perguntado sobre uma eventual regra diferenciada.
Já Carlos Marun confirmou que o tempo de contribuição para a aposentadoria integral não será mais de 49 anos. Assim estava previsto na proposta encaminhada pelo governo ao Congresso.
— Não sabemos como será feita essa diminuição, mas certamente o tempo de contribuição não será mais de 49 anos — disse.
Convidados
Participaram do encontro também os ministros da Fazenda, Henrique Meirelles, e da Secretaria de Governo, Antonio Imbassahy. O secretário-Geral da Presidência, Moreira Franco, esteve presente. Idem os líderes do governo no Congresso, deputado André Moura (PSC-SE), na Câmara, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB).
O líder no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE) compareceram. Da mesma forma, o secretário de Previdência Social do Ministério da Fazenda, Marcelo Caetano. O deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS) e técnicos do governo.