Sérgio CabralAo recolocar a questão do aborto em discussão nacional (nota acima), o governador do Rio, Sérgio Cabral considera que a descriminalização deve ser ampliada: "Do jeito que está, está errado, falso, mentiroso, hipócrita. Isso é uma vergonha para o Brasil. Vamos pegar países onde a religião tem um peso significativo. Espanha, Portugal, França, Inglaterra, Estados Unidos. Esses países gostam menos da vida do que nós? Esse é o ponto."
Como sempre foi colocado no decorrer do governo Lula - ainda que a oposição tente distorcer - e pela então candidata Dilma Rousseff, o aborto é, sobretudo, uma questão de saúde pública. Nenhuma mulher é a favor e, no entanto, são realizadas em média 1 milhão e 400 mil interrupções de gravidez por ano no nosso país.
Como são realizadas sem as mínimas condições de saúde e higiene, quando feitas pela população mais carente, o número de óbitos por aborto se constitui na 3ª maior causa de mortalidade materna no Brasil. Já as complicações decorrentes de interrupções mal feitas constituem-se na 5ª maior causa de internação das mulheres nos serviços públicos de saúde. Nada menos que 300 mil recorrem aos hospitais todos os anos depois de interrupções que as colocam em risco de morte.
Aborto é questão de saúde pública
"A mulher tem que ser muito ouvida e participar ativamente dessa discussão - pondera acertadamente Sérgio Cabral - porque se você tem milhares de mulheres que anualmente vão para os hospitais para reparar danos causados por abortos mal feitos, o poder público tem que estar preparado".
"Ninguém é a favor do aborto - insistiu ele - mas, uma coisa é uma mulher, por alguma necessidade, física ou psicológica, psiquiátrica ou orgânica, desejar interromper uma gravidez. Aí, a de classe média alta tem uma clínica de aborto, clandestina mas em melhor situação, mesmo que não passe por nenhum controle de vigilância sanitária nem médica".
O aborto é, sobretudo, uma decisão da mulher e não pode nem deve lhe ser imposta. Nem se trata de aprovar o direito ao aborto. O que está em discussão é sua descriminalização, é não se criminalizar, judicializar e levar à cadeia milhares de mulheres que anualmente são obrigadas a recorrer ao aborto.
Sem falar na situação de hipocrisia em que vivemos em relação a este tema. Na prática, ele é uma realidade, feito de forma clandestina e ilegal, ceifando vidas que poderiam ser salvas. Como é, portanto, e até por isso, uma questão de saúde pública.
Foto: Wilson Dias/ABr