A produção industrial brasileira tem se mantido travada ao longo dos últimos meses
A atividade econômica brasileira manteve o ritmo lento no início deste trimestre, em um cenário de inflação alta, confiança estremecida e com a indústria e consumo sem conseguir deslanchar. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) subiu apenas 0,12% em abril sobre março, quando o indicador teve variação positiva de 0,05%, segundo números dessazonalizados. O número de março foi revisado de um recuo de 0,11% divulgado anteriormente pelo BC. Pesquisa da agência inglesa de notícias Reuters apontava para estagnação do índice, espécie de sinalizador do Produto Interno Bruto (PIB), segundo a mediana de 19 projeções.
"Crescimento bastante fraco e inflação persistente acima de 6% estão gradualmente levando a economia para um cenário de estagflação", disse em nota o diretor de pesquisa econômica do Goldman Sachs para América Latina, Alberto Ramos. Diante do mau desempenho da indústria, dos investimentos e do consumo das famílias, a economia brasileira desacelerou no primeiro trimestre e o PIB cresceu apenas 0,2% na comparação com os últimos três meses do ano passado. O setor industrial continuou mostrando dificuldades em abril, quando a produção recuou 0,3% sobre o mês anterior.
Nem o varejo, uma das únicas fontes de crescimento mais constantes da economia nos últimos anos, vem conseguindo se sustentar. As vendas em abril caíram 0,4%, segundo mês de queda, mostrando que o consumidor vem sentindo o peso da inflação elevada e do crédito mais caro, resultado do aperto monetário promovido pelo BC, que levou a Selic para os atuais 11%.
Na comparação com abril de 2013, o IBC-Br recuou 0,67% e acumula em 12 meses alta de 2,19%, ainda segundo dados dessazonalizados.
"Levando em conta a queda do indicador na comparação interanual e considerando-se outros indicadores coincidentes referentes a abril e maio, continuamos acreditando que o PIB do segundo trimestre apresentará desaceleração ante o período anterior", avaliou em nota o diretor de pesquisas e estudos econômicos do Bradesco, Octavio de Barros, usando a queda de 2,29% na comparação anual segundo o dado observado.
O IBC-Br incorpora estimativas para a produção nos três setores básicos da economia: serviços, indústria e agropecuária, assim como os impostos sobre os produtos.
Investimento menor
O número de empresas que admitem ter investido mais nos últimos 12 meses, em relação aos 12 meses imediatamente anteriores caiu de 37% para 31%, do primeiro para o segundo trimestre do ano. Ao mesmo tempo, aumentou de 18% para 24% o percentual de empresas que declararam que investiram menos, na mesma base de comparação. Os dados estão na pesquisa Sondagem de Investimentos relativa ao 2º trimestre do ano e divulgada nesta sexta-feira, pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas.
Em relação aos próximos 12 meses, a sinalização é da continuidade da desaceleração dos investimentos, uma vez que 30% das empresas preveem investir mais e 21% programam menos que nos 12 meses anteriores. A diferença de 9 pontos percentuais entre a proporção de respostas favoráveis e desfavoráveis é a menor da série. No primeiro trimestre de 2014, estes percentuais eram 34% e 16%, respectivamente.
De acordo com a pesquisa do Ibre, 27% das empresas industriais indicaram a expansão da capacidade produtiva como principal objetivo para investimentos no ano corrente. A proporção é 5 pontos percentuais inferior à prevista no ano passado e é também a menor desde 2009 (24%). Majoritária em anos de maior crescimento dos investimentos produtivos do setor industrial, a expansão da capacidade foi o objetivo mais citado nas edições das sondagens de 2007-2008 e 2010-2011. O resultado sinaliza, portanto, uma diminuição dos investimentos para este ano.
Mais eficiência
Na outra ponta, a principal motivação para investimentos produtivos em 2014 foi o aumento da eficiência produtiva, citado por 31% das empresas industriais. A proporção, no entanto, é inferior aos 33% previstos no ano anterior. A motivação que mais avançou em relação a 2013 foi a substituição de máquinas e/ou equipamentos (24% das empresas) com alta de 6 pontos percentuais em relação ao ano passado e maior frequência da série histórica iniciada em 1998.
Já a proporção de empresas que informam estar sem programa de investimentos no momento ficou em 18% do total, contra 17% em 2013.
Entre as empresas que percebem entraves à realização de investimentos, o fator mais lembrado foi a limitação de recursos, mencionado por 45% das empresas, um aumento de 6 pontos percentuais em relação ao ano anterior.
O segundo fator inibidor mais citado foram as incertezas acerca da demanda, apontado por 37% das empresas. A proporção ficou acima dos 31% de 2013 e é a maior desde 2009 (50%). O fator carga tributária elevada vem a seguir, citado por 36% das empresas - redução de 1 ponto percentual frente ao ano passado. Já o custo de financiamento aumentou em relação a 2013, de 22% para 28% do total. “Por três anos consecutivos, o item taxa de retorno inadequada é apontado por 22% das empresas, mantendo-se no maior patamar da série histórica iniciada em 2004”.
Avaliação qualitativa
A pesquisa Sondagem de Investimentos é feita pelo Ibre-FGV, que consultou nesta última edição 630 empresas industriais, responsáveis por vendas que totalizam R$ 555 bilhões, a respeito de investimentos nos últimos 12 meses e projetados para os 12 meses seguintes. As empresas também avaliaram as principais motivações e fatores limitativos aos investimentos produtivos neste ano.
A partir da edição do segundo trimestre de 2012, a Sondagem de Investimentos passou a incluir um quesito que procura obter das empresas industriais uma avaliação qualitativa sobre a evolução dos investimentos produtivos nos 12 meses anteriores e posteriores à pesquisa.
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