Naquele que já foi caracterizado - seja por Inácio Ramonet, como por Clovis Rossi - como o mais impressionante espetáculo de monopólio e opressão informativa, o caso venezuelano levou ao que as pesquisas constatam como a pior crise de credibilidade da imprensa da Venezuela. Foi a constatação da "defensora do leitor" de um dos jornais mais tradicionais do país, El Nacional , feroz opositor ao governo de Hugo Chavez. Alba Sanchez, que atua como uma espécie de "ombudsman" do diário, comenta em edição da semana passada como os meios de comunicação despencaram na última pesquisa do instituto Datanálisis sobre as instituições que merecem do público "mais confiança e credibilidade".
Tradicionalmente - comenta Alba - os meios de comunicação se alternavam com a Igreja Católica na liderança entre as instituições da lista. Mas na última sondagem, realizada em março e divulgada agora, a Igreja mantém o primeiro lugar, mas os meios de comunicação são superados pelos bancos, pelos comerciantes e pelos industriais. Como se vê pelas preferências, não se trata de uma pesquisa que reflita a opinião popular, que, em particular na Venezuela de hoje, não aprecia nem os empresários, menos ainda aos banqueiros. E mesmo assim, os meios de comunicação ficam em sua pior posição - o quinto lugar. A defensora do leitor, penalizada, considera que chegar na frente de outras instituições não é consolo algum, afirmando que "é como chegar atrás da ambulância".
Ela se pergunta as razões: "Há desconexão entre os interesses dos leitores e a mídia? Falta sintonia? Os jornalistas fazem o que o público espera? Ou há uma percepção equivocada de quais são os seus interesses?
Não bastasse o alinhamento político aberto com alternativas golpistas e a cobertura totalmente unilateral do que sucede no país, a "defensora" dá voz a um leitor, que reclama da falta de informação sobre as fotos dos soldados dos EUA no Iraque, os ataques de Israel, a condenação da Líbia a enfermeiras que teriam infeccionado intencionalmente com aids mais de 400 crianças em um experimento pago por transnacionais, o isolamento de Cuba por parte dos EUA. "Toda essa informação não é destacada na nossa mídia - queixa-se o leitor..." "O que mais me dói é que eles (seus amigos fora da Venezuela) não culpam ao governo, culpam a nós, em particular aos jornalistas".
Alba Sánchez constata que a "inexatidão" seria um dos problemas mais sérios da imprensa venezuelana. Ela toma exemplos da notícia da detenção de colombianos vestidos com uniformes militares, acusados pelo governo de ser "paramilitares".
A leitura desse mesmo exemplar do El Nacional - de 14 de maio último - nos permite perceber as razões do desprestígio de um jornal como esse. É um diário que recorda a imprensa brasileira e a chilena antes dos respectivos golpes militares, pelo tom, pela unilateralidade da informação, pelos colunistas, todos engajados na linha do jornal. O editorial, por exemplo, ao comentar a prisão dos colombianos, chama-a de "telenovela montada pelos serviços secretos cubanos", mesmo diante da evidência de 80 colombianos vestidos com uniformes militares venezuelanos, acampados na periferia de Caracas, no sítio de um cubano exilado, comprometido com atos de sabotagem contra o governo.
Um dos tantos colunistas radicais de direita cita a oposição para chamar o golpe de 11 de abril de 2002 de "vazio de poder" - que é como Delfim Neto, por exemplo, se referiu ao golpe de 1964 no Brasil. Em matéria aparentemente paga, o opositor Bloco Democrático exorta "à desobediência ativa" contra "este regime assassino", que promoveria a presença na Venezuela da "guerrilha colombiana, dos milicianos cubanos e das células fundamentalistas" (sic), e à luta contra "um sistema castro comunista" no país - para assumir os mesmos termos da grande imprensa brasileira para se referir ao governo de João Goulart.
Basta essa olhada para nos darmos conta do desprestígio dos meios de comunicação venezue