O tão sublimado indivíduo da ideologia pós-moderna não valerá nada se este continuar alheio ao seu espaço social
02/02/2011
Luiz Ricardo Leitão
Ás vésperas da tormenta que provocou centenas de mortes e deixou milhares de desabrigados na região serrana do Rio, este cronista expressou sua convicção de que a tragédia social não pode ser mais um espetáculo a exibir-se como mercadoria de consumo na tela da TV. Já farto da desfaçatez da burguesia tupiniquim, indaguei então, sem qualquer pretensão premonitória, sobre quantos ainda padecerão submersos nas enchentes enquanto os “super-ricos” voam de helicóptero para os balneários ‘selecionados’, bebendo champanha Veuve Clicquot à beira-mar, por R$ 280,00 a garrafa?
A crônica ainda não fora impressa quando tudo veio abaixo na serra fluminense. Sabíamos bem que esta era mais uma tragédia anunciada, mas ainda assim sua colossal proporção espantou a todos nós que maldizemos a terrível “pedagogia da catástrofe”. Em uma sociedade regida pelos dogmas do grande deus Mercado, em que a mobilização coletiva dos trabalhadores cede cada vez mais espaço à cantilena sedutora das (pseudo)redes sociais virtuais, a impiedosa rotina de Bruzundanga mais uma vez se impunha como a forma mais crucial de revelar-nos o quão desnudos estão os monarcas da província...
Reeleito com quase 2/3 dos votos em 2010, Dom Cabral estava em Paris a comprar perfumes quando soube dos incômodos eventos na terrinha. Contabilizou rapidamente o prejuízo político da notícia e voltou em sua caravela à colônia, temeroso de que seus projetos para 2014 possam soçobrar no barro de Friburgo, Petrópolis e Teresópolis. Afinal de contas, não há como ocultar a omissão e prevaricação das ditas "autoridades" no tsunami que devastou a região: mesmo os mais desinformados já estão a perguntar-se por que o playboy pagará R$ 1 bilhão às empreiteiras para "reformar" o recém-reformado Maracanã (lembram-se do PAN em 2007?), em vez de usar essa dinheirama para reduzir o deficit de moradias populares no estado.
“No hay mal que por bien no venga”, costumam dizer os cubanos, um povo muito sofrido, mas cuja organização social lhes permite enfrentar ciclones e furacões com um mínimo de perdas humanas, ao passo que certos vizinhos – uns paupérrimos, como o Haiti, e outros bem poderosos, como o Tio Sam – somam mortos e prejuízos inumeráveis após as intempéries ditas ‘naturais’. Por que Katrina provocou tamanha destruição em Nova Orleans? Culpar os ventos e a chuva, como certamente diria o DJ Cabral aqui no Rio, não convence mais ninguém – que o diga o desgoverno de Bush, cuja omissão e desdém às vítimas da tormenta jamais serão esquecidos ao sul do Império.
Além de desvelar as falácias do discurso oficial e as maracutaias das elites de Bruzundanga, as chuvas da Serra também soterram o vazio das sociedades que o capitalismo globalizado erige, sobretudo em sua periferia. O tão sublimado indivíduo da ideologia pós-moderna não valerá nada se este continuar alheio ao seu espaço social – alienado e desorganizado, ele é apenas uma presa fácil da tirania do Mercado, incapaz de propor uma nova ordem global ou de traçar o próprio futuro pessoal. Vive a esmo, submerso pela propaganda e por ideologemas baratos que o capital lhe vende como bijuterias tropicais. Que novas especiarias nos trarão as naves de Cabral, a fim de que a impiedosa e sarcástica pedagogia da catástrofe não faça o monarca sucumbir em meio à lama e aos corpos insepultos nas montanhas?
Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Noel Rosa – Poeta da Vila, Cronista do Brasil e Lima Barreto: o rebelde imprescindível.
Publicado originalmente na edição 413 do Brasil de Fato