O texto abaixo é de autoria de Cesare Battisti e foi escrito em 2004, quando a proteção que lhe tinha dado o presidente francês Mitterrand foi retirada pelo sucessor Jacques Chirac. Ameaçado de extradição para a Itália, onde foi condenado à revelia a prisão perpétua, Battisti fugiu para o Brasil, onde pede asilo político num recurso ao Ministro da Justiça, Tarso Genro, depois de uma decisão contrária da Conare.
Cesare Battisti tem o apoio no Brasil do senador Eduardo Suplicy, do deputado Fernando Gabeira, do ex-preso político e escritor Celso Lungaretti e de um comitê em defesa de Battisti, recém criado, para que o Brasil acolha Battisti como exilado político e sua família.
Battisti participou na juventude, nos anos 60, como tantos outros, de um movimento de revolta de extrema-esquerda, do qual se separou. Entretanto, tendo fugido, o processo contra ele foi feito à revelia, tendo sido inculpado por quatro assassinatos, que nega ter cometido, mas que lhe foram atribuídos por alguns antigos companheiros arrependidos, para diminuírem suas penas.
Inexplicável pesadêlo
Tento ainda pela décima-primeira vez. Já comecei a escrever esta carta por dez vezes, dirigida aos italianos e igualmente aos franceses. Porém, a tensão e a emoção são tais, as palavras que me acusam tão violentas e o que disso decorre é tão enorme e assombroso que um sentimento de incredulidade e de impotência me paraliza: como minha única voz de homem pode enfrentar todos esses gritos que já foram lançados contra mim ? Como posso impedir a boataria que me oprime : "criminoso odioso", "assassino", "matador". Esse homem que não sou eu tem meu nome nos jornais, por todos os lugares. Esse homem, eu não reconheço.
Porém, como me fazer ouvir ? O conflito social dessa época, na sua origem, como num tratamento de urgência foi marcado por numerosos litígios de natureza forçosamente excepcional. À vista dessa situação que havia suscitado um engajamento coletivo como é possível se chegar a responsabilidades e verdades individuais ? O que posso dizer e oferecer ? Minha sinceridade. Minha verdade. Isso é tudo o que possuo diante desse ataque.
Sim, fui certamente membro de um grupo armado, como foram milhares de outros jovens nessa época, mas não era "chefe" de ninguém. Tendo perdido a confiança na justiça de meu país, fugi para me exilar no estrangeiro. E assim fui julgado na minha ausência, sem nenhuma possibilidade de me defender, sem jamais ter podido falar a um advogado. Nessas condições é que fui condenado à prisão perpétua com base na palavra de "arrependidos", obrigados a negociar sua pena de prisão.
Minha verdade. A "revolução" apoderou-se de mim por acaso numa rua em efervescência, ao passar pelo "sonho comunista" que eu ouvia narrar, desde minha primeira infância, em minha casa, na fazenda. Assumo o engajamento político disso decorrente. Ele faz parte de meu passado, dessa predileção desaparecida, ultrapassada pela maturidade, sancionada pelo exílio. Isso faz também parte da história do meu país. Essa história trágica que causou mortes e lutos, esses mortos que não se pode e nem se deve esquecer, essas vítimas que assombram nossa memória coletiva.
Faz anos agora que escrevo para entender e ser entendido, que vou em todos os lugares ao encontro dos jovens, expondo-lhes meu percurso caótico para que seu instinto de revolta não os conduza a caminhos assim dramáticos como os meus.
Esses curtos anos errantes que me esforço para lhes evitar, eu os paguei com muitos anos de prisão e mais de vinte anos de exílio. Informado pela palavra do Estado da França de que se abriam suas portas aos italianos, ali me refugiei há catorze anos e sua justiça me declarou não extraditável.
Porém, hoje, sem que eu compreenda nem porquê nem como, sou de novo ameaçado de extradição e à prisão perpétua. Neste inexplicável pesadelo, no qual todo entendimento me escapa, só sei e só posso dizer uma só coisa: se assim deverá ser meu destino, então, na verdade, justiça não será feita.
Cesare Battisti, ex-integrante de uma das brigadas vermelhas italianas, que está buscando asilo político no Brasil.