Rio de Janeiro, 16 de Outubro de 2026

Denúncia à conivência de grupos econômicos

Quarta, 17 de Agosto de 2011 às 10:01, por: CdB

Com o surgimento de vários golpes militares na América Latina, o Tribunal Bertrand Russell – inicialmente reconvocado para julgar a ditadura brasileira – estendeu-se em outras duas edições (1975 e 1976), julgando os regimes militares da região (leia mais neste blog). Seu júri era composto prêmios Nobel, personalidades, juristas e intelectuais de grande peso no âmbito internacional. Dentre eles, figuravam os escritores Gabriel Garcia Marques e Júlio Cortazar, intelectuais como Albert Soboul, o prêmio Nobel Alfred Kastler (Física), o jurista belga François Rigaux, o primeiro presidente da Guiné Bissau, Luís Cabral.

“Dali saiu uma análise feroz da conivência de grandes grupos econômicos nacionais e internacionais com os regimes autoritários da América Latina”, afirma o ítalo-brasileiro José Luiz Del Roio, ex-senador italiano. As notícias, porém, do julgamento eram escassas no Brasil. “A informação circulava a conta-gotas”, comenta o ex-senador. “Apenas por meio das revistas francesas, italianas e alemãs”, frisa.

Boa parte da memória sobre o Tribunal encontra-se, hoje, nos arquivos da Liga pelos Direitos do Povo em Roma. Del Roio pretende trazer essa documentação ao Brasil no próximo ano. Ele disponibilizou, também, seu arquivo pessoal à Universidade Estadual de São Paulo (UNESP).

A verdade com 30 anos de atraso

Para Del Roio, o Brasil está atrasado pelo menos 30 anos no resgate das informações sobre os abusos da ditadura. “Quarenta países, em situações diferentes, já fizeram sua Comissão da Verdade”, compara. “Sem memória e sem conhecer sua verdade histórica, o Brasil estará incompleto”, argumenta. Segundo o ex-senador italiano, ao  não falar sobre o seu passado e omitir, ou mentir sobre episódios da gravidade dos que ocorreram durante o regime militar, não se chega ao futuro. “A Comissão da Verdade é um tesouro importante para construção de uma nação”, defende.

O congressista ítalo-brasileiro ressalta que o Brasil, entre 1964 e 1984, saltou de 80 milhões de pessoas para 140 milhões. “Um dos mais intensos desenvolvimentos demográficos já vistos”, lembra. O período, no entanto, foi palco para o cerceamento da vida cultural e a censura de jornais e livros. Ou seja, contribuiu para uma ruptura na memória popular. “O Uruguai, por exemplo, passou pelo período militar com uma população em torno de 3 milhões de pessoas. A memória foi mantida com mais força lá porque não houve uma ruptura como no caso brasileiro”, compara. Diante dessa lacuna, Del Roio vê na criação da Comissão da Verdade uma necessidade histórica para a nação brasileira.

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