Rio de Janeiro, 02 de Abril de 2026

Democracia ameaçada no México

Por Emir Sader - Diante da percepção generalizada de fraude, na consciência pública mexicana, a solução contra este "atentado e usurpação" do país só será pacífica se o Tribunal Eleitoral respeitar o direito, a democracia e a verdade. (Leia Mais)

Sexta, 04 de Agosto de 2006 às 11:15, por: CdB

Diante da percepção generalizada de fraude, na consciência pública mexicana, a solução contra este "atentado e usurpação" do país só será pacífica se o Tribunal Eleitoral respeitar o direito, a democracia e a verdade. A declaração é do sociólogo e ex-reitor da Universidade Autônoma do México, Pablo Gonzalez Casanova, em entrevista ao La Jornada. O autor de "A democracia no México", uma obra clássica das ciências sociais, adverte que não aceitar a proposta de recontagem dos votos da eleição de 2 de julho significaria "uma violência muito grave". Segundo Casanova, há hoje no México um projeto baseado na cultura da mentira que se diz "democrático". Seu propósito não é apenas persuadir, mas si buscar cúmplices e bases de apoio que acreditem "nas mentiras colossais divulgadas na Televisa e na imprensa nacional e internacional".

Ele acrescenta: "Hoje o que prevalece na consciência pública de uma maneira muito séria é que aqui há uma fraude muito grande. Por isso, a exigência de que se faça uma recontagem de votos é perfeitamente razoável, ainda que existam politólogos que só observem ao mundo e ao México, através dos canais televisivos, de que se tratam de uns poucos exigindo isso, animados por um agitador - em relação ao qual, aliás, inventaram um programa de que iria tirar das pessoas suas casas, seus filhos e suas escolas, quando foi com o projeto deles que nos tiraram o petróleo, a eletricidade e parte do território nacional". O que essas forças não se dão conta é que não pode haver uma democracia contra o povo e sem o povo, por mais que elas queiram".

O La Jornada perguntou: "Como é possível defender a cidadania frente aos poderes empresariais-midiáticos? A resposta de Casanova foi a seguinte:

"Já estamos vendo como se faz isso. E, ao fazê-lo, devemos ter muito cuidado para não dar desculpas para que façam a guerra justa, porque desde a Idade Média existe algo que se chama guerra justa e que consiste na legitimação dos atos de guerra. Precisamos fazer todos os esforços possíveis para demonstrar nossa força, sem legitimar uma guerra contra o povo. Além disso, é preciso pedir ao exército mexicano que, por razão alguma, aceite ser utilizado para a guerra contra o povo".

"Aí vem a responsabilidade de um povo maduro", acrescenta Casanova. "Estou seguro que o povo entenderá a necessidade de dar-se conta destes problemas e analisar a forma de fazer a resistência pacífica, sem afetar sua própria força. Eu não vou dizer como. Eles têm muito mais experiência neste terreno, mas seguramente já estão pensando em distintas formas para que siga viva a manifestação contra esse atentado ao país, contra essa usurpação da nação, procurando deter qualquer posição de violência. Seria muito conveniente que isto ocorresse o mais rápido possível para facilitar a todos o caminho rumo a uma solução que só será pacífica se o tribunal respeitar o direito, a democracia e a verdade".

Emir Sader é jornalista.

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