O Partido Democrata (DEM), após as declarações iniciais de um possível rompimento com a candidatura tucana de José Serra, pensou melhor e resolveu dar "uma segunda chance" aos aliados no Partido da Social Democracia Brasileiro (PSDB). Em outra prolongada reunião entre os caciques da ultradireita nacional, realizada até a madrugada desta segunda-feira, no apartamento do presidente da legenda, deputado Rodrigo Maia (RJ), a legenda recuou e começa a colocar panos quentes nas críticas à escolha do senador Alvaro Dias (PSDB-PR) como candidato a vice na chapa tucana.
Premidos pelo risco de praticamente desaparecer do cenário político nacional, caso resolva se dissociar da aliança integrada por tucanos e integrantes do Partido Popular Socialista (PPS), o DEM prefere agora aguardar até esta quarta-feira – data limite para a formalização de alianças eleitorais e data de sua convenção nacional – por uma solução vinda do próprio Serra.
A crise começou na última sexta-feira quando, após uma longa e penosa negociação, os tucanos anunciaram a escolha de Dias como candidato a vice. A forma como ocorreu a divulgação do fato também foi às avessas, por meio de uma nota no Twitter do presidente do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), o deputado cassado Roberto Jefferson. Isso foi suficiente para que o DEM reagisse aos brados, com vários de seus líderes buscando a imprensa para anunciar o possível rompimento da aliança conservadora. Jefferson, porém, optou por ampliar a crise em uma outra nota em seu microblog:
"O DEM é uma merda", escreveu. A nota, logo depois, foi apagada.
Neste domingo, porém, o comando do DEM seguiu com suas críticas à escolha de Dias, mas já mudou de tom, diante da iniciativa de vários de seus integrantes. A corrente majoritária do partido reconheceu que, fora da aliança, não há muita perspectiva para a legenda. Caso abandone a aliança com o PSDB, o DEM verá seu tempo de rádio e de TV ser dividido proporcionalmente entre todos os candidatos, o que beneficiaria Dilma Rousseff, candidata do PT ao Palácio do Planalto com 61% do tempo do DEM, enquanto Serra receberia apenas 29%.
Entre os bombeiros que atuaram nesta última madrugada estavam o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, o líder do DEM no Senado, José Agripino (RN), o deputado federal ACM neto (BA) e o ex-presidente nacional do partido Jorge Bornhausen. As vozes mais radicais, caladas diante da pressão nacional, foram os deputados Rodrigo Maia, Ronaldo Caiado (GO) e Vic Pires (PA).
Após todos concordarem que ruim com os tucanos, pior sem eles, caberá justamente ao mais estridente dos opositores à escolha de Dias, Rodrigo Maia, buscar a saída mais honrosa possível para seguir no apoio a Serra.
Serra esquecido
Tanto em Minas Gerais quanto no Rio Grande do Sul, onde Serra espera um razoável número de votos, seu nome passou praticamente em branco durante as convenções que homologaram os candidatos aos governos estaduais. Em Belo Horizonte, na noite passada, o PSDB homologou a candidatura do governador Antônio Anastasia ao governo de Minas, ancorado no prestígio do ex-governador Aécio Neves para reeleger seu sucessor. Os tucanos locais, porém, não deram qualquer destaque à campanha do ex-governador paulista. Ele foi citado apenas uma vez nos discursos de Anastasia e de Aécio.
Tanto Aécio quanto Anastasia optaram por não saudar Serra no início de seus discursos. Ambos apenas citaram o "companheiro José Serra" uma vez e dirigiram o foco de suas falas à campanha estadual, na qual enfrentarão a chapa composta pelo senador Hélio Costa (PMDB) e pelos petistas Patrus Ananias como vice e Fernando Pimentel candidato ao Senado, com apoio de Dilma Rousseff e do presidente Lula.
– Hoje é um dia de festejar. Nem no melhor dos cenários que prevíamos lá atrás nos traria essa realidade de hoje. Ela superou nossas melhores expectativas. É uma candidatura forjada a partir dos interesses de Minas Gerais. Apresentaremos uma proposta baseada em resultados. Do outro lado não estará uma proposta, mas a negação de tudo que foi feito nos últimos oito anos – afirmou Aécio.
O ex-presidente da República Itamar Franco, candidato ao Senado na aliança com o PSDB foi ainda mais frio com José Serra. Sequer citou o tucano em seu discurso e não perdeu a oportunidade de criticar os tucanos que, depois de preterir Aécio por Serra ainda quis que o líder mineiro seguisse a reboque na chapa do ex-governador paulista.
– Minas merece respeito. Não pode ser reduzida a uma mera moeda de troca em nome de interesses partidários nacionais – fisgou.
A situação de Serra não foi muito diferente em Porto Alegre, onde Serra foi a ausência ilustre do encontro tucano que reconduziu a atual governadora, Yeda Crusius, à condição de candidata à reeleição. Ela sequer tocou no nome do ex-governador paulista em seu discurso de aproximadamente meia hora.
Questionada por jornalistas, Crusius disse simplesmente que não citou o candidato a presidente da República por seu partido devido a "um lapso".
– É tão clara a minha relação com o Serra, o nosso apoio e o trabalho que vamos fazer para elegê-lo, que às vezes é até dispensável dizer – minimizou a governadora.