O depoimento de Palocci, no entanto, apenas teria algum valor se, nele, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fosse citado, de forma cabal, como chefe de um esquema criminoso
Por Redação - de Brasília
Líder do PT na Câmara, o deputado Carlos Zarattini (SP) classificou como um "verdadeiro terremoto" uma eventual delação premiada do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci. A candidata com maior chance de assumir a direção nacional do PT, senadora Gelisi Hoffmann (PR) concorda, mas acredita que o ex-ministro deve dizer tudo o que sabe à Justiça.
Na avaliação do líder petista, Palocci tem muito a falar sobre as relações políticas com grupos econômicos.
— Nós não sabemos exatamente o que o Palocci tem a dizer, mas temos certeza que ele tem muito para falar. Inclusive sobre os grandes grupos econômicos brasileiros. Sobre o capital financeiro, os grandes bancos e as grandes redes de comunicação — afirmou, sem citar nomes.
Encontro do PT
Zarattini participava, nesta segunda-feira, do seminário "Estratégia para a Economia Brasileira - Desenvolvimento, Soberania e Inclusão”. O debate foi promovido pelas lideranças do PT na Câmara e no Senado e pela Fundação Perseu Abramo.
— Não sabemos exatamente o que ele pretende, mas, com certeza, se ele falar sobre o que tem conhecimento, o Brasil vai sofrer um verdadeiro terremoto no meio empresarial — previu.
Na semana passada, em depoimento ao juiz Sérgio Moro, Palocci deu indicações sobre sua disposição em fazer um acordo de delação premiada, ao sugerir que tem muito a contar sobre os esquemas investigados pela Operação Lava Jato.
Entre os líderes do PT presentes ao encontro desta segunda-feira estiveram a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) e o senador Humberto Costa (PE). O presidente da sigla, Rui Falcão, e o ex-presidente da Petrobras Sérgio Gabrielli também compareceram.
Troca de informações
Para Gleisi Hoffmann, a Procuradoria Geral da República (PGR) deveria aceitar a delação premiada de Palocci. Da mesma forma, a confissão do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (PMDB).
— Palocci falou coisas de impacto, foi contundente. Gostaria de saber se vão aceitar a colaboração dele, as informações que pode trazer sobre setores. Pode até ser que tenha coisas em relação ao PT, mas vai ser muito ruim se não o ouvirem. Assim como acho ruim não ouvirem o (ex-)governador do Rio de Janeiro — afirmou a senadora.
Tanto Palocci quanto Cabral negociam acordos de delação premiada, em que trocariam informações por redução de pena.
Delação necessária
Para Gleisi, há certa ’parcialidade' nas investigações da força-tarefa.
— Se alguém fala algo que esteja de acordo com a Procuradoria, leva-se a delação como prova. Se contradiz, é um complô. O fato de alguém falar não é prova — acrescentou.
Palocci, segundo fonte próxima ao processo, teria autorizado sua defesa a procurar criminalistas especializados nesta negociação entre réus e a Justiça. Em seu depoimento ao juiz federal Sérgio Moro, na semana passada, Palocci se ofereceu para revelar “nomes e operações que certamente seriam de interesse da Lava-Jato”.
A mensagem foi compreendida como um pedido de ajuda a Moro. Palocci visa que o acordo de delação com a força-tarefa siga adiante. No Ministério Público, entretanto, a tese de que Moro poderia interceder foi vista como pouco provável.
Lula e Palocci
O depoimento de Palocci, no entanto, apenas teria algum valor se, nele, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fosse citado. Ainda assim, de forma cabal, como chefe de um esquema criminoso. Assim como ocorreu com Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, uma eventual delação premiada do ex-ministro Antonio Palocci somente será aceita pela força-tarefa da Lava Jato se implicar diretamente o líder petista, afirmam jornalistas de diários ligados à direita.
"O ex-ministro Antonio Palocci tem oscilado em relação a Lula. Embora tenha preservado o ex-presidente em seu depoimento ao juiz Sergio Moro, na semana passada, ele já estaria convencido de que dificilmente fechará uma delação premiada sem envolver diretamente o ex-presidente. Palocci só preservou Lula no depoimento da semana passada 'a duras penas', segundo uma pessoa de seu círculo próximo“, diz a colunista Mônica Bergamo.