"Comparado com um período mais longo, o desempenho da economia latino-americana nas últimas duas décadas foi algo decepcionante", afirma o relatório intitulado "Estabilização e Reformas na América Latina desde 1990".
"Este estudo conclui que as reformas estruturais e de estabilização estimularam o crescimento, embora os efeitos tenham sido menores e menos duradouros do que o originalmente esperado."
Os avanços, portanto, não foram suficientes para superar problemas estruturais, incluindo a pobreza. De fato, em termos absolutos, o número de pobres aumentou em 14 milhões na década de 90 para atingir 214 milhões em 2002, segundo o Fundo.
O documento foi preparado pela equipe do Fundo para o Hemisfério Ocidental e apresentado nesta terça-feira em Washington.
Consenso de Washington
Ao apresentar um relatório sobre a evolução da economia latino-americana na última década, o diretor do Fundo Monetário Internacional para o Hemisfério Ocidental, Anoop Singh, disse que os governos latino-americanos aprenderam a lição.
Singh disse que existe atualmente um "novo consenso", diferente do "Consenso de Washington", como é conhecido o conjunto de medidas liberalizantes aplicadas na região nos últimos anos.
"O Consenso de Washington, ou de onde seja, não focava nas reformas estructurais e institucionais", disse o funcionário do FMI, ao comentar as conclusões do relatório "Estabilização e Reformas na América Latina desde 1990".
"Nos anos noventa, a dívida pública crescia, em moeda estrangeira e com vencimento de curto prazo." Hoje, acrescentou, os governos latino-americanos se endividam em moeda nacional e a longo prazo.
Inflação
Os analistas do FMI dizem que as reformas realizadas entre o final da década de 80 e princípios dos 90 ajudaram os países latino-americanos a controlar a inflação e impulsionaram um tímido crescimento econômico.
Segundo o relatório, o controle da inflação - resultado de um "consenso latino-americano" - significou o "mais notável sucesso" dos programas de reformas na região.
"No fim dos anos 90, apenas dois países da América Latina tinham índices de inflação de mais de 10% e a média regional havia baixado para bem menos de 10%."
Já o impulso ao crescimento, outro objetivo das reformas, foi verificado apenas na primeira metade da década, quando o desempenho da região "parecia validar muitas das grandes expectativas iniciais".
"Os sinais de fragilidade ficaram evidentes, no entanto, com o Efeito Tequila, do México, em 1994 e 95, e o contágio para outras grandes economias da região."
Seguiram-se as crises asiáticas e russa, relata o documentoo, "o apetite dos investidores por risco caiu e a consequente reversão do fluxo de capitais acentuaram vulnerabilidades inerentes a economias latino-americanas".
Como resultado, o PIB (Produto Interno Bruto) per capita caiu mais de 1%, em média, entre os anos de 1997 e 2002, e a melhora nos indicadores sociais foi interrompida, diz o FMI.
No caso do Brasil, diz o relatório, o PIB praticamente estagnou nesse período.
Os analistas do FMI destacam as crises financeiras no Brasil (1999 e 2002), na Argentina (2001) e no Uruguai (2002) e dizem que, embora a importância relativa dos erros de política interna possa ser discutida, "está claro em retrospecto que essas economias não estavam suficientemente protegidas de crises".