Geraldo parece embriagado por ter chegado ao segundo turno. Se considera vitorioso. Como grande articulador que passou a se considerar, recebeu, com pompa e circunstância, ao casal Garotinho, que veio oferecer-lhe um milhão e seissentos mil votos, sem nenhuma contrapartida. Geraldo enfiou a cara no pudim e se deu mal.
Como diz César Maia, não se rejeita apoio, mas não se tira fotografia. Considera que Geraldo de um tiro no pé - maltratando o sapato da Daslu. Não passaram poucas horas para que a grande aliada de Geraldo no Rio, Denise Frossard, rompesse com ele. Ela, que passou grande parte da sua campanha denunciando a Sergio Cabral pelo apoio dos Garotinhos, só pôde tomar essa atitude, no que parece será seguida por César Maia. Tudo como reflexo da genial manobra do Geraldo, que parece que tirou definitivamente as sandálias da humildade para vestir salto alto.
Os Garotinhos, em pleno processo de decadência, derrotados em todos os planos no Rio de Janeiro, depois da derrota no PMDB nacional e do episódio da greve de fome, fizeram campanha por Dornelles para o Senado. Não bastasse esse gesto pouco "nacionalista" - para os que lhes atribuíam alguns dotes nessa direção -, apóiam agora para presidente a um candidato que possui assessores que declaram abertamente o desejo de privatização da Petrobrás. Para políticos que diziam defender o petróleo do Rio de Janeiro, parece pouco consistente, como ademais qualquer atitude política do casal que, antes de retirar-se de cena, produz mais um estrago político - desta vez nas hostes de Geraldo.
Estrago que cruza fronteiras, afetando a classe média de São Paulo, de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul, num processo bomerangue digno da capacidade de direção política de Geraldo e de seu magnetismo pessoal.
Enquanto isso, Lula parece ter feito o caminho oposto. Como muita gente queria, foi lhe dado um pito pelos erros cometidos e pelo segundo turno. Correu muito o discurso de que a vitória de Lula no primeiro turno poderia significar a absolvição dos erros cometidos e subestimação por parte de Lula e do PT da gravidade deles.
Passado sentimento de frustração da não vitória no primeiro turno, de um lado, e da euforia de não ter perdido no primeiro, do outro, as ondas parecem voltar a se equilibrar, quando as primeiras sondagens depois do primeiro turno, ao contrário do que contavam e cantavam os tucanos, mantêm a vantagem prognosticada para um segundo turno pelo Datafolha. A direção do PT se deu conta de que já não é possível seguir administrando a vantagem, que a campanha precisa de um novo choque, de um novo impulso.
O fortalecimento da direção nacional da campanha e as decisões que levam a recentrar a campanha em torno da comparação entre os governos FHC e Lula, assim como retomar a ofensiva contra Geraldo - às calamidades, escândalos e fracassos do seu governo em São Paulo -, passando pela punição dos envolvidos na operação Tabajara e a substituição de Ricardo Berzoini como presidente do PT - devem imprimir uma nova cara à campanha. Diretores de institutos de pesquisa, enquanto preparam suas novas consultas, consideram que Lula se mantêm como favorito.
As circunstancias dos debates, na comparação direta entre os dois, também fortalece o favoritismo de Lula, seja pelas realizações efetivas que têm a demonstrar, seja pelo seu perfil, em comparação com Alckmin. A falta segurança que este trata de passar agora deve atrapalha-lo, ao invés de favorecer sua imagem.
Em suma, passados os tremores do resultado do primeiro turno, as acomodações das camadas geológicas recolocam o enfrentamento entre Lula e Geraldo nos termos anteriores, reciclados para novas alianças e para um enfrentamento mais direto e decisivo. Lula tem que assumir um perfil de candidato do choque social contra o do choque de gestão, o candidato do povo contra o candidato das elites. Deve ser suficiente para acender sua campanha e papar suflê de chuchu.
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De sandálias, saltos altos e suflês
Por Emir Sader - Geraldo parece embriagado por ter chegado ao segundo turno. Se considera vitorioso. Como grande articulador que passou a se considerar, recebeu, com pompa e circunstância, ao casal Garotinho, que veio oferecer-lhe um milhão e seissentos mil votos, sem nenhuma contrapartida. (Leia Mais)
Quinta, 05 de Outubro de 2006 às 08:53, por: CdB