Ao contrário de anos anteriores, o Fórum Econômico de Davos não é mais a outra face do Fórum Social Mundial (FSM). Se antes se ambicionava a aproximação dos dois encontros e até videoconferências foram negociadas, hoje se pode dizer que um pouco sabe do outro. "Era aquele que acontecia ao mesmo tempo em que o Fórum de Porto Alegre?", perguntou o norte-americano David Paul, da organização Global Exchange, após ser questionado sobre o que sabia do Fórum de Davos neste ano.
Lançado em 1971 como ponto de encontro de dirigentes de multinacionais e governantes de primeiro escalão, o Fórum de Davos viveu seu auge nos anos 90, quando personalidades como Bill Gates e George Soros subiam à gelada estância suíça para apontar os caminhos do sucesso na globalização. Mas o descompasso entre o discurso e a prática, impostos pelas crises russa, mexicana, asiática, brasileira e argentina, ficou grande demais.
Davos ainda recebe sobretudo governantes europeus, que estão a algumas horas de vôo, mas sem a mesma repercussão de anos passados. No Fórum de 2006, cujo tema central será "O imperativo da criatividade", que começa no próximo dia 25, pouco mais de dois mil participantes devem estar presentes, a maioria representantes de grandes empresas globais. São esperados quinze chefes de Estado ou de governo, mas a programação oficial não anuncia nenhum que seja governante de um player global mais relevante.
Outra característica marcante de Davos tem sido a influência do Fórum Social Mundial. Nos últimos anos um processo de reforma tornou-se inevitável, e os organizadores do Fórum Econômico tiveram de se abrir para temas de interesse da sociedade civil, ainda que de maneira extremamente restrita. Em 2004, o slogan do Fórum Econômico era "Um mundo melhor é possível", claramente inspirado no do Fórum Social, "Um outro mundo é possível".
Em 2006, pelo quarto ano seguido, será realizado o chamado "Open Fórum", em parceria com a Federação das Igrejas Protestantes da Suíça. Alguns painéis ainda serão realizados com a Fundação Terra dos Homens e com a Cruz Vermelha da Suíça. Em debate, temas como trabalho para os imigrantes, água como direito humano e redução da pobreza.
Em uma entrevista de apresentação do Fórum Econômico, um dos organizadores deste ano, o presidente da Universidade de Harvard, Lawrence Summers, discutiu e refutou supostas semelhanças entre o processo de globalização e o de colonização. "Não acho que seja um termo apropriado de comparação", disse ele, apesar de admitir que as mudanças na economia global podem muitas vezes determinar as escolhas das políticas adotadas nacionalmente pelos países, nem sempre de maneira positiva.
- O que se passa hoje em Davos é o reconhecimento de que há uma crise no processo de acumulação capitalista e da lógica neoliberal, de um mercado que não inclui, mas exclui - afirma o cubano Joel Suarez Rodes, diretor do Centro Memorial Martin Luther King e do comitê organizador do Fórum em Caracas.
No entanto, a abertura do Fórum Econômico às questões sociais não revela uma "preocupação com a inclusão", diz Rodes, mas com "a insurgência". Para ele, uma das questões-chave para os representantes do grande capital e dos países ricos é o tema energético. Nesse caso, ameaças de suprimento de petróleo, por exemplo, podem ser resolvidas com ações bélicas, como a invasão do Iraque.
O norte-americano David Paul concorda. Para ele, não são poucos os que vêem a Venezuela de Hugo Chávez e a Bolívia de Evo Morales como uma ameaça. Enfermeiro de formação, Paul veio a Caracas para conhecer o atual processo venezuelano, que, para ele, tem semelhanças com a revolução sandinista na Nicarágua.
- Em 1979 eu estava na Nicarágua também para aprender com o que ocorria com os sandinistas. Trabalhava em um grupo de solidariedade na área de saúde. São processos muito parecidos, lá também havia a preocupação em concentrar na luta contra o analfabetismo, questões de