O músico David Byrne, fundador da banda Talking Heads, transformou uma fábrica de tintas desativada, ao lado do cais de Estocolmo, num gigantesco instrumento musical construído em volta de um velho órgão, que teve seu interior desconfigurado e substituído por tubos e arames.
- O público pode entrar, sentar e tocar o que quiser - explicou Byrne, enquanto estava sendo montada a instalação na Fargfabriken ("Fábrica de Tintas").
Tocando o Prédio não é um show de David Byrne, mas sim uma instalação de arte que ficará aberta até meados de novembro e que implica a participação ativa do público.
As teclas e os puxadores do órgão são ligados a dezenas de tubos de plástico transparentes que bombeiam ar através das fendas de ventilação da fábrica, criando uma série de ruídos de apito.
Além disso, acionam martelos que batem contra pilares de ferro ocos, e também acionam quatro motores dispostos sobre o telhado.
A sinfonia resultante é ensurdecedora, e por algum tempo a fábrica, que data de 1889 e que já produziu armas, colhedeiras e, mais recentemente, tintas, soa como se estivesse industrialmente ativa outra vez.
- É um instrumento muito democrático. Todo mundo é reduzido ao nível de amador - ironizou.
O músico escocês foi vocalista e guitarrista dos Talking Heads, cujos sucessos incluem Psycho Killer e Burning Down the House e que se separaram em 1991.
Sua intenção foi criar uma experiência mais concreta, com maior intervenção do público, do que acontece com a maioria das instalações.
- Boa parte do tempo as pessoas pensam que os artistas estão zombando delas, que formam um grupo de elite que entende o que está se passando, enquanto o público comum fica por fora. Mas, no caso de minha instalação, acho que as pessoas não se sentem intimidadas - afirmou Byrne.
Um casal de idosos que passeava pela rua em Liljeholmen, um subúrbio de Estocolmo, e parou para saber o que estava causando o barulho todo, foi agraciado com uma demonstração pessoal feita por David Byrne.
- Quando saíram, eles estavam sorrindo - declarou o músico.
Ao lado de sua carreira musical solo, na qual se destacam parcerias com músicos de várias partes do mundo e não anglófonos, como o brasileiro Caetano Veloso, David Byrne também já se aventurou nas artes visuais, com mostras de fotografia e instalações.
No ano passado, ele montou o Projeto Cabine Eleitoral, incorporando 60 máquinas de votação descartadas da controversa votação da Flórida durante a eleição presidencial de 2000, vencida por George Bush.
Agora, aos 53 anos, Byrne está se arriscando com o design, criando cadeiras a partir de arquivos velhos e um modelo de molécula em grande escala.
Ele publica um diário online no endereço www.davidbyrne.com e compartilha sua música favorita com seus fãs na rádio online Radio David Byrne.
- Consegui organizar as coisas de tal maneira que posso fazer muitas coisas que me dão prazer. Mas nem todas essas coisas geram renda para mim - concluiu.