Da favela para o mundo. A frase resume os 10 anos de trabalho do AfroReggae, que começou com um grupo de amigos produtores de festas e hoje é uma referência de trabalho social que, por meio da arte, profissionaliza crianças e adolescentes carentes. A frase é também o nome do livro, escrito por José Junior, líder do AfroReggae, que conta a trajetória do grupo e foi lançado nesta terça-feira, no espaço ECCO, em Brasília com a presença do ministro da Cultura, Gilberto Gil, e show do AfroLata.
Tudo começou em 92 quando três amigos, José Júnior, Plácido e Teco Rastafari, organizaram um baile funk. Mas, por causa da violência, o governo proibiu os bailes no Rio. Como já estava tudo pronto para a festa, a saída foi transformar a noite em uma festa de reggae. Nascia assim, meio sem querer, meio para burlar as proibições, o nome AfroReggae. Para conseguir divulgar seus eventos, os amigos resolveram fazer um jornalzinho, onde também falavam de questões dos negros e das favelas. Era o início do trabalho social.
No dia 29 de agosto de 1993, a história da favela foi marcada por uma tragédia: o episódio, que ficou conhecido como a chacina de Vigário Geral, resultou na morte de 21 pessoas, assassinadas brutalmente, e quatro sobreviventes. As investigações provam que aproximadamente 50 policiais militares e civis encapuzados foram os assassinos que mataram em represália à morte de quatro policiais militares, atribuídas à traficantes. Entre brigas das facções do tráfico de drogas e batidas policiais, as favelas cariocas ocupavam, cada vez mais, as manchetes dos jornais e as páginas policiais. Crianças e adolescentes cresciam nesse cenário de violência, abandonados socialmente e civilmente. Foi nesse momento, que os três amigos viram que era preciso fazer algo que levasse esperança a essas crianças e que fosse capaz de afastá-las das drogas, transformando-as em cidadãs.
Promover um arrastão foi a decisão do grupo. Mas esse arrastão foi "do bem", como eles mesmos dizem. Chamaram o grupo SambaReggae para fazer um show em Vigário Geral e saíram, de casa em casa, levando as crianças e anunciando uma oficina de percussão. "Foi a primeira vez que vi, em Vigário Geral, alguma atividade cultural, a cultura que imperava até aquele momento era a cultura da violência", recorda Altair Martins, que na época tinha 13 anos. Hoje, aos 22, é um dos percussionistas do AfroReggae.
O começo não foi fácil, sem grana e sem instrumentos, as crianças brigavam entre si para tocar, na ânsia pelo novo e por conseguir ali uma profissão. "Quando a gente viu o arrastão foi atrás, se inscreveu e todo sábado ficava esperando a oficina. A gente não tinha instrumentos ainda, eles eram emprestados e mais de 40 meninos ficavam ali, à espera para tocar. Imagina como era, rolava até porrada porque quem conseguisse pegar o instrumento primeiro, tocava mais tempo", conta Altair.
O desespero para tocar tinha motivo. "Nós nunca tivemos nada, a primeira oportunidade na vida, abraçamos com tudo", desabafa o percussionista. Hoje, Altair é um músico profissional e já conheceu várias cidades e países, por onde se apresentaram. "Mudou a minha vida e a da comunidade. Tiramos Vigário das páginas policiais e colocamos nos cadernos de cultura". Para o ministro Gilberto Gil, nenhum outro grupo, no mundo, tem a junção da técnica, habilidade e energia física dos brasileiros do AfroReggae.
"Eu fico babando, apreciando essa extraordinária complexidade matemática dos arranjos, tempos e variações, sem falar na energia da performance. É um nível cultural acima do normal. Você tem grupos que, apenas em alguns momentos, conseguem chegar a esse grau de harmonização", se entusiasma o ministro.
Da participação de Gil no projeto, José Junior, líder do AfroReggae, se recorda do dia em que o atual ministro fez um show no Complexo da Maré, que fica na Vila dos Pinheiros, no Rio de Janeiro. "O Complexo vive uma guerra permanente entre quatro facções do tr