Colunista Valter Pomar não concorda com o ajuste fiscal e a reforma da previdência social
No dia 25 de fevereiro, o ex-presidente nacional do Partido Comunista do Brasil "tuitou" a seguinte mensagem:
Atenção PT vocês querem entregar na bandeja a cabeça da presidenta para a direita? Onde pretendem ir?@renatorabelobr
Confesso que fiquei surpreso com o tom da mensagem, mas não com o conteúdo.
Afinal, dentro do próprio Partido dos Trabalhadores e nas reuniões da Frente Brasil Popular, sempre há vozes alertando para o risco que corremos, toda vez que "subimos o tom" nas críticas à política implementada pelo governo Dilma.
De maneira geral, considero bem-vindo este tipo de alerta, pois de fato a situação é muito delicada e exige um permanente ajuste fino.
Mas tal ajuste fino não pode ser unilateral, não pode desconsiderar aspectos importantes da realidade política.
É verdade que a contraofensiva da direita é brutal.
Mas não há como negar que a direita tira parte de suas energias do desânimo popular com o governo, que por sua vez decorre em parte da política econômica do governo. Sem alterar esta política, fica muito mais difícil combater a direita.
É verdade que a contraofensiva é politicamente golpista, o que no curto prazo implica em anular o resultado das eleições presidenciais de 2014, seja via impeachment na Câmara, seja via cassação na Justiça.
Mas o afastamento da presidenta Dilma não é a única pauta antidemocrática da direita.
Há também a criminalização dos movimentos sociais, a judicialização da política, a partidarização da justiça, a tentativa de cassar a legenda do PT e de condenar Lula, a redução global das liberdades democráticas e dos direitos humanos.
E não há como fugir de um fato: em vários momentos o governo Dilma contribui com a pauta acima, seja pela passividade do espero sainte ministro da Justiça, seja por iniciativas desastrosas como a Lei supostamente anti-terrorismo.
É verdade que a contraofensiva da direita é essencialmente política.
Mas ela inclui desde já e visa principalmente objetivos econômicos e sociais mais estratégicos, como a redução da massa salarial e a subordinação do Brasil ao bloco comandado pelos EUA.
E não há como negar que o programa de ação do anterior e também do atual ministro da Fazenda incorporou parte do programa de nossos inimigos.
A obsessão com o ajuste fiscal e com a reforma da previdência são dois exemplos disto.
Quando olhamos o conjunto da realidade, fica claro ser impossível desvincular a defesa da democracia da luta por outra política econômica.
Entre outros motivos porque, mantida a atual política econòmica, será cada vez mais difícil ter apoio popular para defender o governo. E sem apoio popular, seremos derrotados, mais cedo ou mais tarde.
Aí surge a questão: por qual motivo dizer isto, com estas ou com outras palavras, seria "entregar na bandeja a cabeça da presidenta para a direita?"
"Entregar na bandeja" é uma expressão popular bastante conhecida e acho que tem origens bíblicas (João Batista).
Em todas as versões que conheço, há uma dupla de malvados: quem "entrega na bandeja" e quem recebe a cabeça. Já a pessoa decapitada é, sempre, a vítima da dupla maldosa.
Não faço ideia dos motivos pelos quais Renato Rabelo escolheu justamente esta expressão, para referir-se a então possível e hoje consumada aprovação, pelo Partido dos Trabalhadores, de um documento propondo uma política econômica alternativa.
Mas, seja quais forem os motivos, achei totalmente inadequado.
A presidenta é filiada ao PT. Por duas vezes, o PT a escolheu como candidata e fez sua campanha. Militantes, filiados e simpatizantes do PT constituem a maioria, senão absoluta relativa, dos que foram as ruas durante todo o ano de 2015 em defesa de seu mandato. Além disso, como é público, o Congresso do PT realizado em 2015 derrotou (por 56% a 44% dos votos, aproximadamente) um projeto de resolução que criticava explicitamente a política adotada pelo governo.
Por outro lado, como também é público e notório, a presidenta vem tomando decisões estratégicas sem ouvir seu Partido, nem os partidos de esquerda que constituem sua base efetiva de sustentação. E, o que é pior, tais decisões estratégicas vão na contramão do programa vitorioso nas eleições de 2014. E o que é pior ainda, tais decisões estão colocando em risco não apenas o mandato da presidenta, nem tampouco as chances de vitória da esquerda em 2018; as opções feitas pelo governo estão contribuindo para uma derrota estratégica da esquerda brasileira e dos setores populares.
Sendo estes alguns dos fatos, se tem alguém entregando alguma coisa numa bandeja, este alguém não é o PT.
Portanto, respondendo a segunda pergunta de Rabelo e fazendo uso da imagem que ele mesmo usou: apresentar um programa alternativo contribui para evitar que sejamos, todos nós, a começar pela presidenta Dilma, o PT e o PCdoB, "entregues na bandeja".
Finalmente: considero que a política econômica é a quinta coluna da ofensiva golpista. A presidenta Dilma tem os meios para tentar adotar outra política. A esquerda tem o dever de defender que ela faça isto. Entre outros motivos porque nossos compromissos incluem, mas não se limitam, a mandatos e governos. Renato Rabelo, estou seguro, sabe disto tanto quanto eu. Entendo, embora discorde, os motivos pelos quais defende outra maneira de agir. E espero que ele venha a entender os motivos que levaram à aprovação, pelo Diretório Nacional do PT, da resolução sobre uma política econômica alternativa.
Valter Pomar, jornalista no Brasil Agora e na revista Teoria e Debate e Linha Direta antigas publicações ligadas do PT, ex-dirigente da Secretaria Internacional das Relações Internacionais do PT, doutor em História Econômica, derrotado nas eleições para a direção nacional do PT, do qual foi um dos pioneiros. Atualmente é secretário-executivo do Foro de São Paulo. Neto do legendário Pedro Pomar, um dos criadores do PCB, assassinado em São Paulo em 1976 pela ditadura militar.
Direto da Redaçãoé um fórum de debates editado pelo jornalistaRui Martins.
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