Rio de Janeiro, 20 de Abril de 2026

Dançando no escuro

Por Marco Aurélio Weissheimer - Do ponto de vista da esquerda e de todos aqueles que têm um sincero compromisso com princípios democráticos e republicanos, a dança de Ângela Guadagnin é inaceitável. Assim como é inaceitável a quebra do sigilo bancário de Francenildo. Silenciar sobre esses episódios é o caminho mais curto para o abismo. (Leia Mais)

Sexta, 24 de Março de 2006 às 10:59, por: CdB

Do ponto de vista da esquerda e de todos aqueles que têm um sincero compromisso com princípios democráticos e republicanos, a dança de Ângela Guadagnin é inaceitável. Assim como é inaceitável a quebra do sigilo bancário de Francenildo. Silenciar sobre esses episódios é o caminho mais curto para o abismo.

A cena protagonizada pela deputada federal Ângela Guadagnin (PT-SP) na madrugada de quinta-feira, na Câmara Federal, representou uma ofensa ao sentimento médio da população brasileira, ao espírito republicano, aos valores que alimentaram a criação do PT e à inteligência. Feliz com a iminente absolvição do deputado João Magno (PT-MG), a deputada saiu dançando alegremente pelo plenário da Câmara, fornecendo de bandeja - e "de grátis" - para a oposição uma imagem impagável que certamente freqüentará as telinhas dos brasileiros até o final do ano.

Se quisesse produzir uma peça contra o PT e o governo Lula, um publicitário a serviço da oposição não faria melhor. E justamente na semana quando um outro gênio da lâmpada teve a brilhante idéia de determinar a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo. Lars Von Trier (diretor do filme "Dançando no Escuro"), não tem nada a ver com isso, mas o título de sua obra é inspirador para refletir sobre o episódio.

A deputada em questão dançou no escuro, literal e metaforicamente. Dançou no escuro, entre outras coisas, porque mostrou-se cega à reprovação da população brasileira ao comportamento de considerável parcela da classe política. Uma reprovação que já é antiga e que só foi reforçada por episódios recentes da crise política. É óbvio que há uma exploração eleitoral desses episódios pela oposição e que sua exposição midiática é muito maior do que ocorreu em governos anteriores.

Mas, quem conhece minimamente o Brasil e sua estrutura de poder esperava algo diferente? Esperava que a oposição e a mídia iriam ser condescendentes e tratariam a dança como um gesto descontraído e ingênuo da deputada? Depois dos acontecimentos recentes que atingiram em cheio o PT e o governo ninguém tem mais o direito de ser ingênuo. Na verdade, não se trata exatamente de ingenuidade, mas sim de uma concepção sobre a natureza da política, do Estado e, sobretudo, sobre o significado de "ser de esquerda".

Ao contrário do que alguns imaginam (alguns que, infelizmente, talvez não sejam tão poucos assim), "ser de esquerda" não é sinônimo, a priori, de superioridade moral e política. Além de elementos que dizem respeito à história individual de cada pessoa e aos valores e princípios que caracterizam essa história, há aspectos objetivos que representam uma condição necessária para a concretização dessa superioridade na vida: respeito e compromisso com coisas como programa partidário, espírito público, justiça e democracia (na acepção mais generosa e libertária que essas palavras podem ter - acepção esta que permanece uma tarefa irrealizada no Brasil).

Dito de outro modo, não basta a causa ser justa para que sejamos justos. O compromisso com uma política de esquerda que mereça este nome, exige uma permanente renovação e alimentação destes valores e princípios. Não vai aqui nenhum juízo de valor definitivo sobre a moralidade da parlamentar, mas sim um questionamento sobre a sua concepção de política e sobre o significado de "ser de esquerda".

Do ponto de vista da esquerda, dentro e fora do PT, e de todos aqueles que têm um sincero compromisso com valores e princípios democráticos e republicanos, a dança de Ângela Guadagnin é inaceitável. Como também é inaceitável a quebra ilegal do sigilo bancário de Francenildo. A condescendência e o silêncio em relação a esses episódios é o caminho mais curto para o abismo. É como aquela piada do jogador de futebol que lascou em uma entrevista: "nosso time estava a beira do abismo, mas teve uma atitude corajosa e deu um passo em frente". Um passo em direção ao buraco.

A repetição de episódios similares envolvendo parlamentare

Tags:
Edições digital e impressa