Rio de Janeiro, 13 de Setembro de 2026

Dança com hienas

Por Jacques Gruman - Quando vi a foto, lembrei logo do Nelson Cavaquinho. O deputado Jair Bolsonaro não é exatamente um exemplo de discrição e elegância, mas aquela gargalhada que um fotógrafo flagrou na Câmara dos Deputados ... Lembrava-se o cinquentenário do golpe civil-militar que enriqueceu a cultura política autoritária no Brasil e afugentou uma geração inteira dos debates em torno de um projeto nacional libertário.

Terça, 15 de Abril de 2014 às 10:54, por: CdB
E nuvens lá no mata-borrão do céu/Chupavam manchas torturadas/Que sufoco ! (trecho de O bêbado e o equilibrista, de Aldir Blanc e João Bosco)
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Não há herói dos quadrinhos capaz de identificar um torturador no meio da multidão. O monstrengo pode ter cara de galã de novela
Quando vi a foto, lembrei logo do Nelson Cavaquinho. O deputado Jair Bolsonaro não é exatamente um exemplo de discrição e elegância, mas aquela gargalhada que um fotógrafo flagrou na Câmara dos Deputados ... Lembrava-se o cinquentenário do golpe civil-militar que enriqueceu a cultura política autoritária no Brasil e afugentou uma geração inteira dos debates em torno de um projeto nacional libertário. O que fez Sua Excelência ? Tentou defender a ditadura e toda a sequela de horrores tatuados na memória nacional. Contestado com criatividade, abriu um sorriso debochado, insolente, bem ao gosto do bafo azedo que levamos mais de vinte anos para exorcizar. Não satisfeito, ironizou a imprensa, dizendo que ia torturar os jornalistas com seu silêncio. É ou não é um convite ao grande Nelson ? Tire seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor ... Seria pedir demais que um troglodita assumido tivesse um pouco de poesia na alma. Os fantasmas andam à solta. Exumado de sua aposentadoria, o general Leônidas Pires Gonçalves repetiu na imprensa o léxico da paranoia militar, temperado com mentiras tão abjetas que já não provocam escândalo. Disse que ninguém se exilou durante a ditadura (“foram fugitivos que não tiveram a coragem de enfrentar a nova situação”; deveria repetir esta insanidade, por exemplo, para a família de Rubens Paiva, que foi assassinado antes de poder “fugir”), que Vladimir Herzog cometeu suicídio (“era um espírito fraco”), que estávamos em guerra e as vítimas caíram no campo de batalha (perfeita sintonia com a Doutrina de Segurança Nacional, fermentada nos idos da Guerra Fria) e tratou de minimizar a prática orgânica da tortura nas catacumbas da repressão. Para ele, o coronel Paulo Malhães deve fazer parte de uma fauna exótica, fora da curva. Torturador confesso, disse que sequer sabe quantos seviciou e matou. Considera sua atividade na repressão como um trabalho como outro qualquer. Não se arrepende e dorme tranquilo. Quando vamos nos livrar destes dedos em riste, desta patologia com verniz burocrático ? Filmes influenciam notavelmente a imagem que construímos do mundo. Estamos habituados a associar vilania e heroísmo a determinados tipos físicos. O bandido tem “cara” de bandido. Como diziam antigamente: tá na cara. O mesmo para o mocinho. Oito ou oitenta, preto ou branco, tudo se reduz a dois polos bem definidos. Viramos binários conscientes. Não é à toa que o mundo desabou na cabeça de Hannah Arendt quando ela, atônita, encontrou Adolph Eichmann no julgamento em Jerusalém. O metódico estrategista do extermínio de judeus tinha aparência de um tiozinho cálido ! Nada de olhos injetados, cabelos em desalinho, sarcasmo, riso de Boris Karloff, unhas pontiagudas. Por trás da máscara do burocrata se escondia a banalidade do mal, ou seja, a lógica de um sistema que anulava aquilo que mais nos caracteriza como humanos: a capacidade de pensar. Ao descrever essa observação, que não implicava em inocentar Eichmann de seus crimes hediondos, foi mal interpretada, ofendida e estigmatizada. Tinha que valer, para a maioria, o ensinamento do écran. Não há, diziam, zonas cinzentas. O campo de extermínio de Treblinka, na Polônia, foi uma das mais torpes construções do nazismo. Certamente uma eficiente linha de produção de Morte. Quando Stalingrado resistiu e começou o refluxo do III Reich, Himmler ordenou que as centenas de milhares de cadáveres do campo, enterrados em imensas covas rasas, fossem incinerados. Havia que apagar os rastros da barbárie, numa escala sem precedentes. Especialistas em fornos montaram sistemas, semelhantes a churrasqueiras, que podiam acelerar a incineração. Oficiais da SS costumavam organizar uma espécie de piquenique perto das fornalhas. Comiam, bebiam, observavam as chamas como quem está no teatro. Chegaram a construir bancos para assistirem o espetáculo macabro da queima de cadáveres. Testemunhas recordam que os homens da SS em Treblinka gostavam de filosofar e fazer discursos para os prisioneiros. Estavam, e isso é terrível, convencidos de que seu trabalho (!) era importante e correto. Cuidavam de jardins nos arredores dos alojamentos. Tiravam vários períodos de férias por ano, que passavam na Alemanha, porque tinham uma rotina desgastante (estressante, diriam hoje em dia). Tudo acontecia como se fossem empregados de um escritório de arquitetura ou de uma oficina mecânica, com cartão de ponto e relatórios de produtividade. Assassinos sádicos, com aparência angelical e atitudes rotineiras que o deputado Bolsonaro não teria dificuldade em classificar como a saudável ordem da caserna. Um velho e bem sucedido programa de rádio começava com o bordão “Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos? O Sombra sabe. Ah, ah, ah”. Leia-se essa última parte com os devidos calafrios. Tempos ingênuos em que se acreditava neste pão-pão, queijo-queijo. Não há herói dos quadrinhos capaz de identificar um torturador no meio da multidão. O monstrengo pode ter cara de galã de novela. Os rostos se fundem, as almas não são acessíveis. Coronéis Malhães e Eichmanns nascem e se reproduzem como ervas daninhas. Convocados, baterão continência. Se a Justiça fizer corpo mole e a sociedade se omitir, como está acontecendo com os criminosos que torturaram, torturam e matam no Brasil, o mau caminho estará pavimentado.   Jacques Gruman,  é engenheiro químico, é militante internacionalista da esquerda judaica no Rio de Janeiro. 
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