O primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, acusou nesta terça-feira o Dalai Lama de incitar a atual onda de violência que tomou conta do Tibet desde o último dia 10, quando se iniciaram os protestos de tibetanos contra o domínio chinês. Como resposta, o líder espiritual negou todas as acusações e disse que renunciará ao posto de líder tibetano se a situação sair do controle no Tibet.
- Se as coisas ficarem fora de controle, então minha única opção é renunciar completamente -disse o Dalai Lama, numa entrevista coletiva em sua base em Dharamsala, no norte da Índia.
Em uma coletiva de imprensa, o premiê Wen disse que a alegação do líder espiritual tibetano de que as autoridades chinesas cometeram um genocídio cultural no Tibete não passa de mentira, assim como seu desejo de dialogar.
- Há ampla evidência provando que esse incidente foi organizado, premeditado, arquitetado e incitado pelo bando do Dalai. Isso tudo revelou que as alegações do bando do Dalai de que eles buscam não a independência, mas sim o diálogo pacífico, não passam de mentiras - disse Wen.
O Dalai Lama disse que não tem nada o que esconder da China:
- Investiguem a fundo, se quiserem começar a investigar aqui, sejam bem-vindos. Chequem nossos vários escritórios. Eles podem examinar meu pulso, minha urina, minha almofada, tudo - disse ele rindo e fazendo mímica enquanto falava.
O Dalai Lama, que vive no exílio na Índia desde 1959, negou todas as acusações da China e disse ser contra a violência, venha ela da China ou dos tibetanos.
- Mesmo se mil tibetanos sacrificassem suas vidas, não ajudaria. Por favor, ajudem a parar com a violência do lado da China e também do lado do Tibet - disse ele a repórteres.
Segundo Samdhong Rimpoche, o primeiro-ministro do governo exilado, o Dalai Lama, quando disse que renunciaria ao posto de líder, quis dizer que continuaria a ser o Dalai Lama, mas sem o poder de liderança.
- Se o povo tibetano se envolver com a violência e não puder agir de forma não-violenta, ele não estaria em condições de liderá-lo - disse Rimpoche.
O Dalai Lama - que ganhou o prêmio Nobel da Paz em 1989 por sua oposição ao uso de violência na busca pela autonomia do Tibete - já apelou várias vezes pelo diálogo com a China.
Os protestos, que já são considerados os maiores e mais violentos dos últimos 20 anos, começaram como uma reação à notícia de que monges budistas teriam sido presos depois de realizar uma passeata para marcar os 49 anos de um levante tibetano contra o domínio chinês.
Wen acusou também os manifestantes de tentar sabotar os Jogos Olímpicos de Pequim, que começam no dia 8 de agosto.
- De fato, vocês, os repórteres, podem ver a essência do incidente recentemente ocorrido no Tibet. Eles querem incitar a sabotagem aos Jogos Olímpicos para obter seu terrível objetivo.
Ele disse ainda que a resposta do governo chinês aos protestos foi moderada, de acordo com a lei.
Segundo o governo chinês, 13 pessoas foram mortas por manifestantes em Lhasa, a capital do Tibet. No entanto, tibetanos que vivem no exílio disseram que pelo menos 80 manifestantes foram mortos pelas forças de segurança chinesas durante a repressão aos protestos.
Os comentários do primeiro-ministro da China foram os primeiros desde o início da onda de violência.
Jogos Olímpicos
Nesta segunda-feira, ministros dos Esportes e representantes dos comitês olímpicos de países europeus descartaram a possibilidade de boicotar a Olimpíada de Pequim por causa da repressão aos recentes protestos no Tibete.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse estar preocupado com a violência no Tibete e pediu que a China seja tolerante com os manifestantes.
- Neste momento, faço um apelo às autoridades para que mostrem comedimento e peço a todos os envolvidos que evitem mais confrontos e violência, disse Ban.
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