Não pude me conter. Hoje não é meu dia de escrever, mas me sinto obrigado. Faz alguns dias, um ministro iraniano disse, no Rio de Janeiro, ser coisa feia a homossexualidade e que, no Irã, não existe isso. Não explicou como o Irã faz, mas presume-se que, em nome da religião local, tais comportamentos condenados pelo Corão sejam punidos de maneira a não sobrar nenhum.
Dizem que esse ministro iraniano veio ao Brasil para explicar porque no seu país se mata a pedradas, também em nome de Deus (depois explico porque não sou mais explícito), a mulherada adúltera, como é o caso de Sakineh. Tem muita gente contente com o Irã, porém acho que essa dose é forte para convencer os brasileiros da boa vontade iraniana com relação aos seus pecadores.
Não que o Deus cristão seja melhor que o muçulmano xiita, mas pelo menos, depois de algumas modernizações nos dogmas, já não se assa herege na fogueira, e se adiou para depois da morte a fornalha para os pecadores e blasfemadores. O que não deixa de ser um avanço em termos de direitos humanos.
Porém, antes de falar num outro ministro que diz besteira, e esse é ministro brasileiro, o Edison Lobão, vou explicar porque tenho de tomar cuidado ao falar em Deus. Existe na Comissão de Direitos Humanos da ONU, aqui em Genebra, uma proposta de alguns países árabes no Conselho de Direitos Humanos em favor do respeito às religiões.
Muito delicadamente, o que se pretende é criar uma espécie de "delito de insulto religioso", ou seja, impedir que cartunistas, jornalistas, escritores critiquem figuras e símbolos religiosos. Em palavras bem diretas, se quer simplesmente restabelecer a censura religiosa. Daquele princípio básico do respeito ao culto de todas as religiões, quer se ir um pouco mais longe, para se impedir qualquer deslize por parte de quem não tem religião.
Tudo é muito sutil, mas se essa idéia pega, ainda mais dentro da ONU, não se poderá mais se fazer crítica a religiões e religiosos. E, em alguns anos ou séculos, um desenho, uma frase ou uma observação poderão ser considerados blasfêmias e sujeitos a multa, pena de prisão e, por que não?, à degola e à fogueira.
E agora vamos ao nosso ministro Lobão para não se usar outra palavra que termina também em ão. Vejam bem: o povo japonês está vivendo um momento de pânico, de medo e de angústia decorrentes da radiação atômica depois da explosão de quatro centrais e reatores nucleares.
Tóquio, uma cidade mais populosa que São Paulo, corre o risco de ter sua população contaminada, as pessoas que podem tomam um avião para fugir do Japão. A imprensa européia denuncia a empresa japonesa Tepco, responsável pela central de Fukushima, por não ter cuidado da manutenção dos reatores e ter até falsificado os dados relacionados com o resfriamento dos reatores.
Na Alemanha, a chanceler Angela Merkel que era favorável ao nuclear mandou suspender tudo e o mesmo aqui na Suíça, onde a ministra Doris Leuthard, também antes favorável às centrais, quer uma moratória para se reestudar a questão. Por que ? Porque uma tragédia como a do Japão teria consequências tão dramáticas senão mais funestas aqui na Europa, pois algumas dessas centrais estão próximas de cidades populosas.
E o que diz o ministro Lobão ? Que o Brasil vai prosseguir com o programa nuclear mesmo porque "as centrais de Angra são limpas e seguras". Ora, isso é um insulto a todos os brasileiros que vivem perto ou longe das três centrais, uma delas até chamada de "vagalume" por acender e apagar.
Todos os brasileiros sabem das falhas e defeitos dessas centrais negociadas durante a ditadura pelo militares com a Siemens alemã. Ora, como a Siemens não poderá continuar com seu projeto nuclear dentro da Alemanha, seu lobby pretende transferir para o Brasil suas ambições.
Essas famigeradas centrais, no caso de provável acidente, pois uma já tem até rachaduras, irão afetar as populações do Rio e de São Paulo, nas quais não existe nenhum plano de evacuação acelerada. Ou seja, é o mesmo que cutucar o diabo com vara curta – o Brasil tem recursos para funcionar hidrelétricas, tem sol para energia solar e não precisa, como os pequenos países de forte consumo elétrico, criar verdadeiras bombas-relógio.
É preciso se dizer basta ao ministro Lobão e exigir dele que se retrate e mude de planos, sob pena de demissão. É o nosso futuro que esse ministro irresponsável ou incompente quer colocar em perigo. (Publicado originalmene no Direto da Redação)
Rui Martins, jornalista, escritor, correspondente do Correio do Brasil em Genebra
Da maldade de Deus ao ministro Lobão
Por Rui Martins - Um ministro iraniano vai ao Rio de Janeiro e diz que no Irã não existem homossexuais, provavelmente já foram degolados. E que é normal se matar mulher adúltera com pedradas lá no Irã. Não bastasse isso, o nosso ministro Edison Lobão praticamente insulta as populações próximas de Angra, dizendo o absurdo que, no Brasil, as centrais nucleares e reatores são limpos e seguros. Diante do que se passa no Japão, com o risco de irradiação nuclear até em Tóquio, é uma enorme irresponsabilidade dizer uma asneira desse tipo, nem que seja para agradar o lobby da Siemens. Num país sério é caso de demissão.
Quarta, 16 de Março de 2011 às 17:36, por: CdB
Não pude me conter. Hoje não é meu dia de escrever, mas me sinto obrigado. Faz alguns dias, um ministro iraniano disse, no Rio de Janeiro, ser coisa feia a homossexualidade e que, no Irã, não existe isso. Não explicou como o Irã faz, mas presume-se que, em nome da religião local, tais comportamentos condenados pelo Corão sejam punidos de maneira a não sobrar nenhum.
Dizem que esse ministro iraniano veio ao Brasil para explicar porque no seu país se mata a pedradas, também em nome de Deus (depois explico porque não sou mais explícito), a mulherada adúltera, como é o caso de Sakineh. Tem muita gente contente com o Irã, porém acho que essa dose é forte para convencer os brasileiros da boa vontade iraniana com relação aos seus pecadores.
Não que o Deus cristão seja melhor que o muçulmano xiita, mas pelo menos, depois de algumas modernizações nos dogmas, já não se assa herege na fogueira, e se adiou para depois da morte a fornalha para os pecadores e blasfemadores. O que não deixa de ser um avanço em termos de direitos humanos.
Porém, antes de falar num outro ministro que diz besteira, e esse é ministro brasileiro, o Edison Lobão, vou explicar porque tenho de tomar cuidado ao falar em Deus. Existe na Comissão de Direitos Humanos da ONU, aqui em Genebra, uma proposta de alguns países árabes no Conselho de Direitos Humanos em favor do respeito às religiões.
Muito delicadamente, o que se pretende é criar uma espécie de "delito de insulto religioso", ou seja, impedir que cartunistas, jornalistas, escritores critiquem figuras e símbolos religiosos. Em palavras bem diretas, se quer simplesmente restabelecer a censura religiosa. Daquele princípio básico do respeito ao culto de todas as religiões, quer se ir um pouco mais longe, para se impedir qualquer deslize por parte de quem não tem religião.
Tudo é muito sutil, mas se essa idéia pega, ainda mais dentro da ONU, não se poderá mais se fazer crítica a religiões e religiosos. E, em alguns anos ou séculos, um desenho, uma frase ou uma observação poderão ser considerados blasfêmias e sujeitos a multa, pena de prisão e, por que não?, à degola e à fogueira.
E agora vamos ao nosso ministro Lobão para não se usar outra palavra que termina também em ão. Vejam bem: o povo japonês está vivendo um momento de pânico, de medo e de angústia decorrentes da radiação atômica depois da explosão de quatro centrais e reatores nucleares.
Tóquio, uma cidade mais populosa que São Paulo, corre o risco de ter sua população contaminada, as pessoas que podem tomam um avião para fugir do Japão. A imprensa européia denuncia a empresa japonesa Tepco, responsável pela central de Fukushima, por não ter cuidado da manutenção dos reatores e ter até falsificado os dados relacionados com o resfriamento dos reatores.
Na Alemanha, a chanceler Angela Merkel que era favorável ao nuclear mandou suspender tudo e o mesmo aqui na Suíça, onde a ministra Doris Leuthard, também antes favorável às centrais, quer uma moratória para se reestudar a questão. Por que ? Porque uma tragédia como a do Japão teria consequências tão dramáticas senão mais funestas aqui na Europa, pois algumas dessas centrais estão próximas de cidades populosas.
E o que diz o ministro Lobão ? Que o Brasil vai prosseguir com o programa nuclear mesmo porque "as centrais de Angra são limpas e seguras". Ora, isso é um insulto a todos os brasileiros que vivem perto ou longe das três centrais, uma delas até chamada de "vagalume" por acender e apagar.
Todos os brasileiros sabem das falhas e defeitos dessas centrais negociadas durante a ditadura pelo militares com a Siemens alemã. Ora, como a Siemens não poderá continuar com seu projeto nuclear dentro da Alemanha, seu lobby pretende transferir para o Brasil suas ambições.
Essas famigeradas centrais, no caso de provável acidente, pois uma já tem até rachaduras, irão afetar as populações do Rio e de São Paulo, nas quais não existe nenhum plano de evacuação acelerada. Ou seja, é o mesmo que cutucar o diabo com vara curta – o Brasil tem recursos para funcionar hidrelétricas, tem sol para energia solar e não precisa, como os pequenos países de forte consumo elétrico, criar verdadeiras bombas-relógio.
É preciso se dizer basta ao ministro Lobão e exigir dele que se retrate e mude de planos, sob pena de demissão. É o nosso futuro que esse ministro irresponsável ou incompente quer colocar em perigo. (Publicado originalmene no Direto da Redação)
Rui Martins, jornalista, escritor, correspondente do Correio do Brasil em Genebra