Rio de Janeiro, 05 de Setembro de 2026

Da ditadura dos relativismos à relativa ditadura do Papa

Por Nancy Cardoso Pereira - Não sou padre. Nem me sinto na obrigação de discorrer sobre os desacertos eclesiásticos dos últimos tempos. Foi-se um Papa. Eis um outro... e a falta de poesia continua a mesma porque não faz diferença se as celestiais promessas ou as terríveis maldições são ditas neste ou naquele latim. O que assusta, incomoda e desafia é a falta de poesia. (Leia Mais)

Domingo, 01 de Maio de 2005 às 07:57, por: CdB

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
...e um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus!

Texto extraído do livro "Nova Antologia Poética", Editora Globo - São Paulo, 1998

Não sou padre. Nem me sinto na obrigação de discorrer sobre os desacertos eclesiásticos dos últimos tempos. Foi-se um Papa. Eis um outro... e a falta de poesia continua a mesma porque não faz diferença se as celestiais promessas ou as terríveis maldições são ditas neste ou naquele latim. O que assusta, incomoda e desafia é a falta de poesia.

Poesia das palavras que se querem belas, como discursos, documentos e bulas de cura, de fazer dormir quem precisa de sono, de fazer acordar os sonolentos de tanto poder; palavras curiosas e desexplicantes, que estranham o mundo e deseducam os olhares adaptados pelas formas de aceitação da fome, da guerra e da morte prematura dos seres e suas órbitas de culturas.

E nem me ocupo de tentar saber o que seria uma "ditadura do relativismo" mas reconheço o esforço de trocar as palavras de lugar: se é relativismo... não é ditadura! Se é ditadura, finda-se o relativo... E o novo-velho Papa se anuncia assim: desconhecedor do que no mundo é mesmo ditadura e o que no mundo dos discursos e narrativas, ciência e tecnologia se avizinha dos monolíticos blocos do saber-em-si-mesmado que continua excluindo maiorias.

Então, é sobre isso que eu queria conversar: o que é mesmo uma ditadura e o que é mesmo enfrentar relativismos. Converso sobre isso porque são poeiras antiqüíssimas que entram pela boca e o nariz da teologia e da pastoral e porque cuspir é também uma forma básica de resistência dos corpos contra invasões bárbaras de poluições indesejadas.

Das ditaduras: escolha a sua! a que mais de perto asfixia a vida! Falemos do Império de pretensão estadunidense, de militarização do mundo, de destruição de direitos e total indiferença pelos procedimentos mínimos dessa mínima civilização em resolver conflitos.  Falemos do Império, ditadura ocidental e cristã, orgulhosa de sua capacidade de ditar duras resoluções que violentam o clima, as economias regionais e os imaginários culturais. Falemos das "ditaduras" das grandes empresas de alimentação que vorazmente devoram sementes, grãos, água e energia devastando as diversidades de terras e povos em nome do lucro e do capital.

A "ditadura" do poder masculino, imaculado pelas reformas superficiais das formas superficiais de democracias formais: anexação de mulheres e minorias. Ditadura da democracia ocidental e sua lógica formal de representação: jogo de espelhos, reflexo dos reflexos da luta de classe que já não se quer ver. Falemos da ditadura da pobreza - feminina e infantil - que atravessa o mundo e das políticas de compensação que inviabilizam enfrentamentos estruturais. A ditadura da heterossexualidade.

A ditadura do amor romântico. A ditadura dos padrões de beleza. A ditadura do trabalho alienado, escravo e explorado... Assim, quando Dom Ratzinger anuncia querer combater a "ditadura do relativismo"  me dou conta que não posso aceitar gastar meus dias sobre a terra falando de deus, do pecado e do anjo rebelado... Não quero ser santa nem profeta: pelo contrário! Cuspo o que escuto como resistência desse corpo latino-americano sub-evangelizado e nego mais uma vez a tradição imposta.

Me aproximo dos/das poetas e repito baixinho a tradição do evangelho que aprendi nas lutas de libertação: não se esqueçam dos pobres! não

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