Rio de Janeiro, 26 de Abril de 2026

Da Bolívia ao Chile

Por Emir Sader - Favorita nas pesquisas, a chilena Michelle Bachelet cumpre em seu país um papel simbólico de afirmação da mulher: é progressista, de esquerda, divorciada e agnóstica. Eleição deste domingo marcará mais um episódio do ciclo de transformações reservado para o continente em 2006, que começou com a vitória de Evo Morales. (Leia Mais)

Sábado, 14 de Janeiro de 2006 às 14:43, por: CdB

Favorita nas pesquisas, a chilena Michelle Bachelet cumpre em seu país um papel simbólico de afirmação da mulher: é progressista, de esquerda, divorciada e agnóstica. Eleição deste domingo marcará mais um episódio do ciclo de transformações reservado para o continente em 2006, que começou com a vitória de Evo Morales.
 
Os bolivianos votaram com enorme entusiasmo e elegeram, pela primeira vez, um líder indígena presidente do país. A vitória de Evo Morales, sua posse - com rituais indígenas - e seu governo são e serão momentos fundamentais na história da América Latina.

Seu governo praticamente se iniciou com os acordos internacionais estabelecidos com Cuba, Venezuela, Espanha, França, China, África do Sul e Brasil. Iniciou-se também com a reiteração da disposição do novo governo de nacionalizar as empresas de hidrocarburetos, renegociando os contratos com as empresas estrangeiras e criando as condições para a industrialização do gás boliviano. Ao mesmo tempo, Evo Morales reafirmou a política de garantir o direito dos camponeses de plantar 1,5 alqueire de coca, para seu consumo individual, terminando com a política dos EUA de erradicação de toda plantação de coca, mas, ao mesmo tempo, prontificando-se a estabelecer um acordo com o governo estadunidense para combater o narcotráfico. Com isso, separa claramente as duas coisas: o consumo individual de coca pelos camponeses e o narcotráfico.

Aliás, vale a pena esclarecer que a mídia monopolista internacional insiste em classificar a Evo como "líder cocalero", o que ele não rejeita e, ao contrário, restitui dignidade ao trabalho e à cultura camponesas e indígena boliviana. Porém, pela criminalização da coca em escala mundial, sempre associada a narcotráfico, se compreende a intenção de desqualificá-lo. Além de líder cocalero, ele é líder indígena, líder camponês, dirigente do Movimento ao Socialismo (MAS) e um dos governantes mais importantes que a América Latina e o Caribe já tiveram.

Na plataforma do MAS está inscrita também a convocação de uma Assembléia Constituinte, no mês de julho, eleita em agosto, para elaborar a primeira Constituição multicultural e multiétnica da Bolívia, com reconhecimento e presença direta dos aymaras, quéchuas, guaranis e todas os demais povos indígenas. Será uma contribuição fundamental para a construção jurídica e política de um sistema que garanta a presença dessas comunidades na vida da Bolívia, país em que 70% das pessoas se reconhecem como indígenas.

Enquanto isso, os chilenos votam neste domingo, resignadamente, sem entusiasmo, e tudo indica que elegerão, pela primeira vez, uma mulher presidente da República. A aliança entre a Democracia Cristã e o Partido Socialista deve eleger o quarto presidente seguido depois de Pinochet, com dois da DC e seriam dois do PS, desde 1990.

A falta de entusiasmo vem do fato de que a democratização não mudou substancialmente a face do país. É certo que a herança recebida da ditadura era efetivamente maldita. O Chile, que antes freqüentava as proximidades da Costa Rica e do Uruguai como os países menos desiguais do continente - chamados de "Suíças da América Latina" - agora se aproxima perigosamente da vergonhosa vizinhança do Brasil, como um dos países com maior desigualdade na região.

Esta situação foi produto da brutal repressão da ditadura pinochetista sobre a esquerda, os sindicatos, os movimentos sociais e tudo o que representasse resistência ã ditadura e aos interesses dos grandes capitais. O Chile tornou-se uma plataforma de exportação - sua economia depende, em 50%, do comercio exterior -, com um voraz processo de privatizações - que não poupou as universidades públicas - todas pagas hoje no Chile -, além da saúde e da previdência social.

Os governos da aliança democrata cristã-socialista mantiveram a política econômica herdada de Pinochet e trataram de desenvolver políticas compensatórias, que afetaram, em pequena medida, a situação

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