A primeira etapa da Cúpula da Sociedade da Informação acabou nesta sexta-feira com declarações de boas intenções dos Governos ligadas à urgência de reduzir a exclusão digital e com grande dose de desconfiança da sociedade civil por causa das possibilidades de cumprir seus objetivos.
Os temas mais polêmicos, como a criação de um fundo de solidariedade pedido pela África para ajudar os países mais pobres a chegarem às novas tecnologias, ou a conveniência de uma maior internacionalização da gestão da Internet, foram adiados até a segunda parte da cúpula que será realizada na Tunísia em 2005.
No primeiro caso, com o argumento de que é necessário evitar a criação de novas burocracias e vigiar quais fundos são empregados normalmente para os objetivos fixados, os países ocidentais preferem continuar apostando no financiamento bilateral dos projetos, o que, segundo muitos países em desenvolvimento, permite que eles imponham condições aos receptores de ajuda.
No caso da gestão da Internet, hoje nas mãos da empresa privada com sede na Califórnia (EUA) Icann, encarregada de atribuir os números e nomes de domínio na rede, foi pedido à ONU que realize um estudo sobre como envolver mais todas as partes interessadas, entre Governos, setor privado e sociedade civil.
Esta última e muitos países em desenvolvimento afirmam que os países do Norte vêem nessa área um mercado em contínua expansão e tentam impor um modelo mercantilista de Internet, que não responde à defesa da identidade cultural ou lingüística dos povos, comunidades e minorias, apesar da declaração de intenções dos documentos aprovados na cúpula.
Os países ocidentais comemoraram o fato de terem conseguido com sua firmeza que China, Irã e outros aprovassem um documento que reafirma a Declaração Universal dos Direitos Humanos como base da Sociedade da Informação e especifica que esses direitos incluem a liberdade de opinião e de expressão e a livre circulação de informações.
Outros mais céticos, como a organização Repórteres sem Fronteiras, denunciaram que muitos dos documentos adotados pelos países se tornam no dia seguinte algo inútil e consideraram escandaloso que a segunda parte desta cúpula aconteça na Tunísia, país que prende jornalistas e castiga os defensores desses direitos.
Finalmente, alguns países, entre eles Cuba, perguntaram para que servem as novas tecnologias da informação quando no mundo há milhões de pessoas que não sabem escrever, mais de um bilhão que estão na pobreza extrema e dois bilhões que não dispõem de energia elétrica.
Outros países do continente americano não têm, no entanto, uma visão tão pessimista, embora reconheçam que seus povos enfrentam o desafio de conhecerem as novas tecnologias da informação e comunicação quando ainda não foi garantido a eles plenamente o acesso à alfabetização básica. Como a Argentina disse na cúpula, é necessário olhar essa tensão desigual, onde passado e futuro coexistem, não como uma contradição irreversível, porém mais como um desafio político e social.
Este consiste, de acordo com o plano de ação aprovado na cúpula, em conectar às novas tecnologias da informação e da comunicação povos, escolas, universidades, centros científicos e de pesquisa, bibliotecas públicas, departamentos de Governos locais e centrais, e velar para que mais da metade da população mundial tenha acesso a elas. Tudo isso até 2015.