Rio de Janeiro, 19 de Abril de 2026

Cuecas, trepadas e evasão fiscal

Enquanto os leitores e telespectadores brasileiros se divertiam com histórias de cuecas, carteiras de dinheiro e bacanais de fim de semana, um grupo de homens sérios, limpos, asséticos, de paletó e gravata, com pouco tempo para os prazeres da carne, desviava para contas secretas suíças capitais que poderiam ser investidos no Brasil, criar empregos e ajudar a diminuir a miséria. (Leia Mais)

Terça, 28 de Março de 2006 às 13:08, por: CdB

Enquanto os leitores e telespectadores brasileiros se divertiam com histórias de cuecas, carteiras de dinheiro e bacanais de fim de semana, um grupo de homens sérios, limpos, asséticos, de paletó e gravata, com pouco tempo para os prazeres da carne, desviava para contas secretas suíças capitais que poderiam ser investidos no Brasil, criar empregos e ajudar a diminuir a miséria.

Quantas linhas, quantos comentários maldosos e irônicos se dedicaram a esses senhores suíços, especializados no roubo quieto e tranquilo? Enquanto o circo montado para divertir o povo e  desmoralizar um governo, se especializava em achincalhar um ministro, um grupinho de come quieto, ia comendo nosso dinheiro.

Não as ninharias dos mensalões, financiamento de partido e compra de votos de parlamentares aplicada sem alardes em países de seriedade comprovada. Mas milhões e milhões que saiam discretamente do Brasil para enriquecer ainda mais, um país podre de rico, a Suíça. Interessa esse tema para os patrões da imprensa e para os que contam os dias que nos separam de um novo governo sedento de privatizações e de comprometimentos com banqueiros e com uma aproximação americana?

O ato da polícia federal pegando no pulo, não na cama, os pilantras suíços que chupavam nossos reais não parece ter merecido o tratamento adequado. Mesmo se foi um golpe de mestre e se vai economizar milhões para o Brasil. O diretor do banco Credit Suisse, acostumado com o reino do poder do dinheiro em Zurique e excitado com tantos milhões de dólares recolhidos no Brasil jamais sonharia dormir na cela paulista da Polícia Federal, na cama de Maluf. Mas um juiz brasileiro teve colhões para isso.

Tesão de banqueiro por dinheiro, feito rei Midas que não podia trepar porque a amante virava estátua de ouro, não empolga a platéia, não dá venda de jornal ? Porém, esse roubo tranquilo, quieto, era maior do que tudo quanto tem servido para destabilizar a república tupiniquim.

Mas vamos deixar de lado o financiamento de partidos. Será que na análise de um governo tem peso as ereções de seus ministros? O que interessa se fulano tem prazer com este, esta ou com aquela, de pé ou deitado, de costas ou de frente ? com a mulher ou com outras?

Aqui na Europa continental, vida privada de político não interessa. Os ingleses e os americanos derrubam ministros por serem gays e tentaram derrubar presidente por gostar de chupada. Mas a França não pôs em xeque-mate seu presidente por ter vida dupla e uma filha com a amante. Nem essa filha foi marcada com a letra escarlate dos caçadores de pecadores americanos. Mas na república do descrédito, poucos devem ter pensado em cumprimentar o juiz paulista Fausto Martin Sanctis, que, corajoso, arrumou como inimigo o segundo maior banco suíço. Quem se lembrou de incensar esse juiz pela sua coragem e a coragem das autoridades brasileiras por desafiarem os receptadores internacionais dos capitais espoliados de países emergentes e mesmo pobres?

Quem quis saber os nomes dos envolvidos nessa evasão fiscal, desses patriotas brasileiros que não investem no Brasil, onde ganham suas fortunas? Quem? Quem o safado, o ministro que cura seu stress no sexo pago ou os come-quietos da finança internacional?

Rui Martins, autor de O dinheiro sujo da corrupção, Geração Editorial

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