Rio de Janeiro, 17 de Setembro de 2026

Cuba, o bode expiatório

Por Emir Sader - O recrudescimento da política dos EUA em relação a Cuba mostra que o governo Bush está preocupado em desviar a atenção da opinião pública, hoje direcionada para os casos de tortura no Iraque. Tem lógica: a eleição está chegando. (Leia Mais)

Sexta, 14 de Maio de 2004 às 06:22, por: CdB

A política norte-americana em relação a Cuba sempre foi um tema de política interna - da forma similar ao peso que o lobby judaico sobre a política dos EUA em relação a Israel, o lobby cubano na Flórida atua sobre as decisões da Casa Branca em relação a Cuba.

Bush nunca estará suficientemente agradecido pelos votos que lhe permitiram armar a fraude que o levou à Presidência da República. Não podemos esquecer que nas últimas eleições ele teve menos votos que Al Gore, mas chegou ao poder naquela que se pretende um modelo de democracia liberal.

Agora em que se aproximam as novas eleições presidenciais e Bush luta para conseguir, pela primeira vez, a maioria dos votos dos norte-americanos, suas atitudes políticas, sobretudo as referentes a Israel, Iraque e Cuba, se orientam pelas pesquisas de opinião. São elas que fazem com que, entre a avalanche de fotos e denúncias já conhecidas de torturas e abusos no Iraque, e as que estão por chegar, Bush encontre tempo para divulgar um documento de 500 páginas que determina um recrudescimento ainda maior na política dos EUA em relação a Cuba.

A atitude de Bush pode ser facilmente entendida: quando as pesquisas revelam, pela primeira vez, que a maioria dos norte-americanos acredita que não deveriam ter se metido no Iraque, nada melhor do que tentar desviar a atenção para outro tema - neste caso Cuba, bode expiatório histórico dos EUA, depois da desaparição da URSS.

As medidas de endurecimento do bloqueio econômico a Cuba foram recebidas com reações profundamente negativas em Cuba e até nos meios considerados opositores ao regime cubano - por exemplo, pelo governo do mexicano Vicente Fox, em conflito aberto com a Ilha -, tal a prepotência que expressam. As reações internas fazem com que a mobilização popular expresse uma vez mais a rejeição provocada pelas medidas tomadas pelos EUA - diminuição das possibilidades de viagens dos parentes dos EUA a Cuba, diminuição da quantidade de dinheiro que podem enviar, entre outras.

Além da lógica eleitoral de Bush, está a lição que crêem haver tirado da desaparição do campo socialista: medidas duras por um lado, junto com tentativas de penetração da influência ocidental, pelo incentivo ao consumismo. É isso que tentam fazer com Cuba. Neste momento, as medidas tem a ver diretamente com as eleições norte-americanas, assim como praticamente todas as atitudes de um governo que luta para renovar seu mandato, com os olhos postos na primeira terça-feira eleitoral de novembro. O resto é o resto.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História

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