Rio de Janeiro, 15 de Abril de 2026

Crônica da cidade desvairada

Por Flávio Aguiar - Quem sabe algo parecido houve na revolta dos tenentes em julho de 1924, quando, além de combates nas ruas, aviões bombardearam bairros e parte do centro da cidade. Na segunda-feira, São Paulo teve um troço, um colapso cardíaco. (Leia Mais)

Terça, 16 de Maio de 2006 às 13:04, por: CdB

Glosando frase do comemorado João Guimarães Rosa (50 anos de Grande Sertão: Veredas e de Corpo de Baile), pode-se dizer que em São Paulo "não há o que não haja". É verdade: na segunda feira, 15 de maio do corrente, viveu-se um dia que não tinha ainda havido na história da cidade. Foi o dia do pânico. Algo vagamente parecido ocorreu em certo dia da década de 70 quando depois de chuvas torrenciais as represas que vizinham com a cidade ameaçavam transbordar. Ou nas épocas das informações censuradas sobre a epidemia de meningite, ao tempo da ditadura. Houve os dias da luta armada, das repressões brutais, da guerra da Maria Antônia. Houve e ainda há os dias de inundação. Quem sabe algo parecido houve na revolta dos tenentes em julho de 1924, quando, além de combates nas ruas, aviões bombardearam bairros e parte do centro da cidade.

Mas, na segunda-feira, São Paulo teve um "troço", um colapso cardíaco, um AVC, algo desse teor e naipe. E quanto mais autoridades iam para o rádio e a TV acalmar a população, dizendo que "estava tudo sob controle" e outras quejandas bobagens, mais se via povo em pânico ou desespero nas ruas.

Todas e todos que lêem esta coluna sabem que para mim verde-oliva só cai bem em azeitona, quartel e sete de setembro. Mas na segunda cheguei a desejar que o Exército viesse às ruas, porque o clima era de guerra civil. Passei a tarde na Cidade Universitária da USP, enfiado numa banca de mestrado (aliás, excelente). Pela primeira vez em meus 40 anos de universidade (desde que entrei na UFRGS como estudante) e desde que se criou a telefonia celular, participei de uma banca em que os aparelhos ficaram ligados, recebendo notícias de toda a cidade, mensagens escritas, recados de parentes e de amigos. Para meu desespero, lá pelas tantas a bateria do meu telefone se foi, e eu ainda tinha mensagens registradas de que eu ainda não tinha tomado conhecimento.

Confesso que passei angústias parecidas com as do tempo da ditadura, quando a gente aguardava prisões que podiam ocorrer ou más notícias que podiam chegar a qualquer momento. Apesar de tudo levamos a banca até o final, e com galhardia, para não prejudicar o estudante, que mereceu aprovação elogiosa. Quando saí, duas palavras contraditórias entre si descreviam a cidade universitária: ela estava semideserta, e num pandemônio indescritível.

Explico-me: as atividades como aulas, o funcionamento das secretarias, etc., tinham sido suspensas a partir das 16 horas. Os prédios, os estacionamentos, estavam desertos, pareciam abandonados. Já nas três saídas viárias da Cidade Universitária o congestionamento era espantoso. E vinham notícias mais espantosas: shoppings fechando, outros sendo evacuados, as marginais ganglionadas (como diria Euclides da Cunha), as avenidas com artrite ou com artrose, massas e massas humanas indo a pé para lares distantes.

Só consegui sair da USP pelas 20 horas, para encontrar um cenário inusitado: ruas e avenidas relativamente às escuras, pelo apagar dos luminosos, supermercados fechados, postos de gasolina bloqueados com correntes, ruas com delegacias barricadas e ninjas mascarados com escopetas e carabinas calibre 12 à mão, nos edifícios as janelas guarnecidas por suas venezianas, enfim, um cenário de desolação. Na minha casa houve um rosário de telefonemas, os que eu dei e os que recebi, pedindo notícias. Meu irmão me ofereceu asilo no Rio Grande do Sul... e por aí foi: uma movimentada noite de noticiários, boatos e comentários.

Em muitas manifestações pela imprensa falada, televisionada, internáutica e impressa, notei uma constante: uma dissociação curiosa, como se houvesse de um lado "a sociedade", e de outro, "o crime", "a bandidagem", ou, para citar a expressão do governador Cláudio Lembo, "os homens de má vida" (sic). Não há possibilidade de se montar uma ação organizada como a que se montou em São Paulo sem um forte enraizamento de organizações como o PCC nessa "sociedade". Esse enraizamento é amplo e

Tags:
Edições digital e impressa