Os críticos de cinema não se emocionaram com os primeiros trabalhos exibidos no Festival de Cinema de Cannes este ano, mas as coisas finalmente começaram a esquentar com o retorno dos veteranos mais famosos ao evento que é a maior vitrine do cinema mundial.
As avaliações informais feitas por jornalistas e comentaristas, que nem sempre constituem indício confiável das opiniões do júri, indicavam que os filmes exibidos até o primeiro final de semana não chegaram a causar grande impressão.
Na verdade, até agora o aspecto mais memorável do festival tinha sido a galáxia de celebridades e o frenesi de mídia que cercaram a estréia de Star Wars: Episódio 3 - A Vingança dos Sith, no domingo, apesar de o filme não fazer parte da competição oficial.
Entre os primeiros trabalhos que despontam como candidatos prováveis à cobiçada Palma de Ouro está Caché (Escondido), de Michael Haneke, filme que dá destaque a um elenco francês encabeçado por Juliette Binoche e Daniel Auteuil.
A maneira como o filme explora a culpa nacional e pessoal e os segredos ocultos encontrou eco junto aos críticos, que saudaram a recusa do diretor austríaco em oferecer respostas concretas às difíceis perguntas que ele formula.
De um máximo de quatro pontos, Caché recebeu 3,3 numa sondagem rápida feita junto aos comentaristas da revista Screen International.
Deborah Young, da revista Variety, descreveu o filme como "um dos trabalhos mais instigantes de Haneke."
Como acontece com muitos filmes de Cannes, as histórias pessoais assumem um significado mais amplo, no caso em pauta relacionado ao difícil passado colonial da França com a Argélia.
"A questão se torna uma de responsabilidade: não apenas a responsabilidade da França em relação à Argélia, mas também as da Europa e América em relação ao Iraque e ao mundo em geral", escreveu Young.
O crítico de cinema e escritor Mark Cousins concordou que Caché é um dos primeiros favoritos ao prêmio, ao lado de A History of Violence, do diretor canadense David Cronenberg.
Cousins disse à Reuters:
- Há vários anos os diretores que aparecem em Cannes vêm debatendo a questão da violência. O que estamos vendo agora é efeito de filmes como Kill Bill. Os cineastas se sentem muito dúbios, moralmente, em relação a eles.
Cousins também prevê que l'Enfant (A Criança), de Jean-Pierre e Luc Dardenne, faça sucesso junto ao júri. E Manderlay, do dinamarquês Lars von Trier, sobre a escravidão, foi saudado com aplausos retumbantes em sua sessão para a imprensa, na segunda-feira.
Os filmes asiáticos exibidos em Cannes até agora têm decepcionado, de acordo com a crítica. Dos 21 filmes que concorrem na competição oficial, cinco são da Ásia, e os primeiros comentários diziam que seriam candidatos fortes.
Bashing, do diretor japonês Masahiro Kobayashi, que explora a maneira como o Japão rejeita uma funcionária de organização humanitária que volta a seu país depois de ser feita refém no Oriente Médio, teve recepção especialmente dura.
Apesar de ser altamente tópico, em vista do fato de que vários japoneses foram feitos reféns no Iraque, a crítica ocidental disse que o filme não mostrou por que as pessoas deveriam receber mal a alguém que, aos olhos de muitos, deveria ter sido recebido em casa como heroína.
Election, do diretor de Hong Kong Johnnie To, sobre rivalidades ferozes entre criminosos tradicionais de Hong Kong, tampouco causou boa impressão à crítica.
Críticos dizem que Cannes ganha ânimo após início fraco
Segunda, 16 de Maio de 2005 às 14:00, por: CdB