O presidente da Argentina, Néstor Kirchner, passou o comando do país para sua esposa, Cristina Fernández de Kirchner, a primeira mulher eleita para o cargo, que deverá enfrentar um legado de forte crescimento econômico, mas com risco inflacionário. Diante de líderes de todo o continente, incluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Cristina, de 52 anos, prestou juramento como primeira mulher eleita presidente na história argentina.
Néstor Kirchner promete passar a um discreto segundo plano durante os quatro anos de mandato da mulher, mas poucos argentinos acreditam que ele sairá da cena pública.
– Ela vem fortalecer o processo de mudança na região. Antes diziam que as mulheres eram inferiores a nós, agora dizemos que são iguais a nós, mas estamos equivocados. A mulher é infinitamente superior a nós, por sua intuição, por ter uma fibra e qualidades muito superiores às nossas – disse o presidente venezuelano, Hugo Chávez, ao desembarcar em Buenos Aires, no domingo, referindo-se à chegada de outros presidentes de esquerda ao poder na América Latina nos últimos anos.
Cristina manterá vários ministros do marido e prometeu continuar também o modelo atual, voltado no incentivo ao consumo interno, o que permitiu à Argentina crescer mais de 8% ao ano desde 2003. A inflação anual, porém, se aproxima dos 9%. Além disso, a carência de infra-estrutura no país, especialmente energética, colocou em risco a manutenção da recuperação econômica.
Com estreitas relações com Chávez, Cristina também enfrentará o desafio de definir sua relação com os Estados Unidos, depois de um mandato discreto do marido na política externa.
Mais responsabilidades
No jantar oferecido pelo casal Kirchner aos presidentes latino-americanos, presentes ao encontro, em Buenos Aires, que marcou a fundação do Banco do Sul, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender a adoção, por parte dos países mais ricos da América do Sul - Brasil, Argentina e Venezuela -, de políticas diferenciadas para reduzir as desigualdades financeiras e sociais com as nações mais pobres.
– Ou resolvemos o problema das assimetrias e as economias mais fortes, como a argentina e brasileira, tenham uma política diferenciada com os países de economias menores, como Bolívia, Equador, Paraguai, Uruguai ou a integração continuará a fazer parte dos nossos discursos eleitorais – disse Lula, na Casa Rosada, sede do governo argentino.
Lula atribuiu a todos os presidentes da região a paternidade do projeto, incluindo Hugo Chávez, da Venezuela, e Néstor Kirchner, da Argentina, principais defensores do banco.
– Em janeiro de 2006, os companheiros Kirchner e Chávez e os demais presidentes aqui presentes idealizamos a criação de um banco de fomento genuinamente sul-americano – destacou.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou da cerimônia, à tarde, antes de voltar a Brasília. Pela manhã, manteve encontro na residência da Embaixada do Brasil com o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe. Em seguida, o presidente brasileiro tem audiência com o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn.
Na agenda de Lula estava previsto, ainda, encontro privado com o primeiro-ministro da França, François Fillon. No início da tarde, o presidente Lula ofereceu almoço em homenagem ao primeiro-ministro francês, François Fillon.
Mais cedo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que o banco é mais um capítulo do avanço da integração da América do Sul.