A Grécia deve tentar surpreender os mercados financeiros nos próximos dias ao reduzir seu déficit orçamentário em 5 pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, para restaurar sua credibilidade, disse o presidente do banco central do país nesta terça-feira.
– Para fazer uma reversão definitiva da tendência negativa, precisamos nos superar e surpreender favoravelmente os mercados, alcançando melhoras ainda maiores do que as que projetamos – afirmou George Provopoulos em relatório na assembleia anual do BC com acionistas.
O atual plano do governo propõe uma redução de 4 pontos do déficit como forma de contornar a crise financeira que gera transtornos como, nesta terça-feira, a paralisação de praticamente todo o sistema de transportes da capital, em uma greve dos rodoviários contra as medidas de austeridade adotadas pelo governo.
Ainda pela manhã, o Banco da Grécia advertiu que a dívida pública do país seguirá crescendo dos atuais 115% do PIB (Produto Interno Bruto) até os 130% em 2014, data na qual o endividamento começará a se estabilizar. Em um relatório emitido em Atenas, o banco emissor revisa também para baixo o crescimento econômico do país em 2010 e prevê que o PIB sofra uma contração de 2%, a mesma que em 2009.
Em geral, as previsões macroeconômicas do relatório, assinado pelo governador da instituição, Yorgos Provopulos, são pouco encorajadoras. Com relação à dívida, o principal fator de pressão à economia, o documento reconhece que apesar de outros países também terem altos números de déficit e dívida, essas nações "são capazes de financiar seus déficits, principalmente com a economia interna".
A taxa de economia da Grécia, porém, representa 5% do PIB, devido ao enorme déficit fiscal do país e ao "rápido crescimento do consumo interior nos últimos anos". Assim, o relatório admite que a dívida pública "não pode ser financiada com recursos próprios", o que levou ao aumento da dívida externa. Provopulos se refere a um "perigoso círculo vicioso", no qual a dívida externa e o déficit público se "retroalimentam".
Para superar essa situação, o banco emissor aposta em uma reforma de todo o sistema produtivo, um aumento das exportações, a reforma do mercado de trabalho e "a redução da burocracia, a erradicação da corrupção e a modernização da Administração pública".
Em sua análise, o Banco aplaude a política de redução do gasto público e a decisão do Governo de solicitar a aplicação do mecanismo de resgate desenhado pela zona do euro e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) por um total de US$ 45 bilhões de euros.
Nesse sentido, a entidade emissora pede ainda mais esforço poupador.
"Para reverter definitivamente às tendências negativas, temos de superar a nós mesmos e surpreender os mercados", indica o relatório.
Portugal em linha
Um dos reflexos mais imedidatos da crise na Grécia surgiu em Portugal, nesta terça-feira, com a greve dos funcionários de transporte público, também contra as medidas de austeridade fiscal do governo lusitano. Os países do grupo conhecido como PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha, na sigla em inglês) encontram-se pressionados pelo excessivo aumento das contas públicas, causado pela crise do capitalismo mundial, eclodida nos EUA em 2008. Com os mercados preocupados com a possibilidade de Portugal se tornar o próximo elo fraco da zona do euro depois da Grécia, o governo foi firme no seu plano de austeridade, tendo conversado com sindicatos mas fazendo poucas ou nenhuma concessão.
Os trabalhadores do transporte público se juntaram aos trabalhadores dos correios, que começaram uma greve na segunda-feira, que deve continuar até 7 de maio. Os funcionários da administração do Parlamento devem entrar em greve na quarta-feira e os sindicatos de caminhoneiros também planejam uma passeata em maio. O plano do governo português, que tem o objetivo de reduzir o déficit orçamentário para 2,8 do Produto Interno Bruto (PIB) em 2013, de 9,4% no ano passado, inclui o congelamento dos salários do setor público e a privatização de algumas empresas estatais. E os trabalhadores devem sofrer o impacto das medidas.
– Nós questionamos se deveriam ser os trabalhadores a pagar pela dívida. Achamos que não, não podem ser apenas os trabalhadores a pagar – disse Manuel Leal, porta-voz de um sindicato de transportes.
De acordo com os sindicatos, cerca de 20 mil trabalhadores de 16 companhias de transporte participam da greve de segunda-feira até quarta-feira, afetando cerca de um milhão de passageiros.
Bolsas em queda
As bolsas de Portugal e Espanha lideram as perdas entre os principais mercados de ações da Europa, em seguida à Grécia, em meio aos receios de que os problemas de dívida enfrentados pelo governo grego contagiem outros países endividados.
Às 8h25 (de Brasília), o índice PSI-20, da Bolsa de Lisboa, operava em queda de 2,38%, enquanto o Ibex-35 da Bolsa de Madri recuava 2,11%. Na Itália, o índice FTSE MIB da Bolsa de Milão declinava 1,42%. O índice ASE, da Bolsa de Atenas, tinha baixa de 3,42%.
– Até mesmo o mais pessimista com relação a risco soberano entre nós com certeza esperava que o pedido de ajuda feito pela Grécia fosse mais bem recebido do que foi. Como (esses países) responderão a uma solução para a Grécia é a chave. Se eles não conseguirem se estabilizar depois de um bem sucedido socorro grego, então os problemas que esperamos eventualmente ocorrerem serão acelerados – disse Jim Reid, estrategista do Deutsche Bank, observando que Portugal, Irlanda e Espanha operam em forte queda.