Prova, que é bom, não foi apresentada nenhuma. Com esta constatação, o mercado financeiro reagiu imediatamente, na tarde desta terça-feira, e os sinais da economia foram claros: a crise política que abalou o governo, ao longo das últimas semanas, arrefeceu-se, estiou.
Tanto o PTB, uma considerável parte dele que não pertence aos domínios de Jefferson, quanto os demais partidos da base aliada, principalmente aqueles citados nas acusações acerca de um "mensalão" distribuído a parlamentares, terão ainda espaço para exercer o apoio ao governo. Na realidade, o único a ver o nome arrastado na poça de lama da política nacional foi o deputado fluminense. Na realidade, ele fora atirado lá desde as denúncias de fraudes na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) por um funcionário arrogante e aético, posto ter aceitado um pagamento qualquer por seus serviços à iniciativa privada, quando lhe é vedada esta possibilidade por força do Estatuto dos Servidores Federais.
Se Jefferson está envolvido neste esquema ou em tantos outros citados nas denúncias que pesam sobre ele, caberá à CPMI recém-instalada. Mas a dúvida quanto à lisura do parlamentar petebista mostrou-se muito menos importante, obviamente, do que a tempestade que se avizinhava do Palácio do Planalto. Por lá, conta-se agora o número de mortos e feridos, após a ventania. Possivelmente, todos estarão salvos, exceto uma ou outra baixa consensual na direção do PT, como a do tesoureiro Delúbio Soares, por exemplo.
Já o ministro José Dirceu - maior vítima de mais uma trapalhada produzida pela troupe intrépida de tesoureiros e carregadores de malas petistas - está em uma situação digna de nota. Com o prestígio arranhadíssimo desde o advento lamentável do Waldomiro Diniz, ex-funcionário da Casa Civil denunciado por fraude, corrupção e flagrado pela câmera indiscreta de um bicheiro, após denúncia contundente do magoado petista Luiz Eduardo Soares, ex-secretário nacional de Segurança Pública do governo Bené, no Estado do Rio de Janeiro, José Dirceu recebe mais duro golpe.
A vida não deve estar fácil para o ex-guerrilheiro, de moral rígida e contornos ideológicos bem definidas, ouvir do ex-integrante da tropa de choque de Fernando Collor de Mello a pergunta, transmitida feito pênalti aos 45 minutos do segundo tempo, na final de copa do mundo, em cadeia nacional de rádio e TV:
- Falei uma meia-dúzia de vezes sobre o "mensalão" com o Zé Dirceu. Não é Zé? Não é Zé? Não é Zé?
Orgulhos feridos, mágoas que transbordam, noites insones, muito diz que me diz, um tremendo mal-estar na base de sustentação do governo e a oposição batendo lata. De prático, é o que resta neste para a crise gerada por um meteoro que se esfacela pela entrada na atmosfera de um país que não aceita mais a existência de satélites políticos acima do bem e do mal, crias empertigadas da mesma elite demente da qual herdou a arrogância e a impressão de que leis foram feitas apenas para os adversários.
Foi-se o deputado Roberto Jefferson. Fica a certeza de que ninguém é besta.