Rio de Janeiro, 10 de Outubro de 2026

Crise, para o Brasil, é sinônimo de oportunidade, dizem economistas

Segunda, 15 de Dezembro de 2008 às 10:41, por: CdB

A crise financeira internacional oferece riscos, mas também grandes oportunidades para o aprofundamento do processo de integração regional. Essa é uma das conclusões da Cúpula Social do Mercosul, que começou nesse domingo e prosseguiu nesta segunda-feira, em Salvador (BA), com a presença de representantes de governos e de segmentos da sociedade civil organizada dos países membros e associados do bloco.

– Enxergo o processo de integração sul-americana como uma das possíveis saídas para atenuar os efeitos negativos da crise, que certamente virão. Tanto pelo lado do comércio quanto pelo lado  dos mecanismos financeiros de apoio à integração sul-americana, acho eu, há um espaço para avanços – acredita André Biancarelli, economista e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que integrou a mesa  de um grupo de trabalho sobre os impactos da crise financeira no processo de integração sul-americana.

Ele lembrou que as trocas comerciais intra-regionais têm maior valor agregado do que a pauta exportadora da região para o resto do mundo. Alerta, no entanto, para os riscos das chamadas tentativas de diferenciação, já verificadas em outros momentos de crise, principalmente no aspecto financeiro.

– Podemos ver um país tentando se afastar do vizinho porque tomou uma ou outra atitude não muito bem vista pelos mercados, como por exemplo o Brasil dizendo que não é a Argentina. Certamente, a atitude do Equador de dar o calote na sua dívida vai atrapalhar a aproximação regional. Acima de tudo, é preciso tomar cuidado na condução do processo do ponto de vista político, já que a crise vai demandar mais do processo de integração e, ao mesmo tempo, pode criar as condições para que o processo de integração piore o seu ritmo – alertou.

Roberto Jeferson, do programa Mercosul Social e Solidário, disse que é hora de passar dos slogans bonitos – como Um Outro Mundo é Possível’ (do Fórum Social Mundial), Uma Outra Economia é Possível e A Integração é Possível - para a indicação de mecanismos institucionais que efetivamente estimulem o processo de integração visando ao desenvolvimento integral da região.

– Também temos que definir qual o modelo de Estado que queremos, qual o papel que o Estado deve ter – propôs.

Para Victor Hugo Peña, representante da chancelaria paraguaia no programa Somos Mercosul, é preciso reforçar o papel do Estado intervencionista  e também ampliar a participação social.
– Tem que haver uma presença muito forte do Estado na economia que redimensione o papel do mercado e também o papel da sociedade. Necessitamos de uma sociedade que participe, que atue, que seja capaz de interferir nas tomadas de decisões e na formulação da agenda nacional e internacional do Mercosul – disse. 

Peña também defendeu o aprofundamento da integração financeira no processo de integração regional.

– Os Estados Unidos estão perdendo sua capacidade dinamizadora e de consumo e esta redução vai trazer conseqüências que somente poderiam ser revertidas a partir justamente da maior integração. Isso significa integração física, integração econômica, coordenação macroeconômica e, obviamente, chegar a uma moeda comum, mas esse deve ser um processo mais longo que o de integração financeira – ponderou.

Ligia Correa, da Confederação das Mulheres do Brasil, ponderou que a economia mundial era voltada ao consumo dos Estados Unidos e que a crise financeira é uma oportunidade para “virar a página”e construir uma nova ordem econômica e social.

– Para a gente sair dessa crise não basta transferir o poder para outra região, cada país precisa buscar uma saída autônoma. Precisamos investir no nosso mercado interno e controlar o fluxo de capital. O papel do Estado é fundamental – afirmou.

Já Ubiraci Dantas de Oliveira, da Central Geral de Trabalhadores (CGTB), manifestou a preocupação dos movimentos sindicais com relação às taxas de juros no Brasil, lembrando que documento com esta posição foi levado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no mês passado.

– Há lugares em que os juros estão a 3%, 4%. Aqui está a 13,5%. Isso barra desenvolvimento porque barra investimentos. Queremos que o presidente diga ao Meirelles (Henrique Meirelles, presidente do Banco Central) que não vire as costas para a nação. Se em 2010 voltar atrás, será ruim para nós, para a Argentina, para a Venezuela, para a Bolívia, para todo mundo – acrescentou.

Meirelles está na Costa do Sauípe para a reunião do Conselho do Mercado Comum – instância máxima decisória do Mercosul – e para encontro com presidentes de bancos centrais e ministros da área econômica do bloco.

A sociedade civil passou a participar formalmente da construção de uma agenda de integração em 2006. Este ano, a Cúpula Social do Mercosul tem como tema central a integração produtiva e social. Os resultados serão sistematizados apenas em um mês, mas as principais conclusões serão apresentadas na Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, nesta terça-feira, na Costa do Sauípe.

Tags:
Edições digital e impressa