Rio de Janeiro, 10 de Outubro de 2026

Crise nos Estados Unidos e incertezas econômicas

Segunda, 08 de Agosto de 2011 às 07:59, por: CdB

Toda e qualquer crise financeira, mesmo depois de debelada,costuma deixar como sequela, no mundo econômico, um rastro de incertezas,vulnerabilidades e facilidades de novo contágio. Em geral, o segundo round,quando acontece, costuma ser bem pior que o primeiro. As incertezas se devem,grosso modo, ao fato de que nem sempre essas "curas econômicas” ocorrem deforma total e plena. Nem sempre os medicamentos são dosados de forma adequada.Nem sempre todas as portas são fechadas. O Japão é um caso ilustrativo: debeloua crise, mas está uma década sem crescer de forma vigorosa patinando sempre emincertezas. Em geral, as incertezas ecoam do mercado e no mercado promovem osdevidos estragos.

O fato concreto, contudo, é que nunca houve alguma dúvida deque o mercado, esse "ser estranho”, por natureza, é um local extremamentevolátil. Ninguém sabe ao certo o que "pensa” o mercado (se é que pensa), oumelhor, o que pensam àqueles que fazem e acontecem no mercado. Enquanto isso,as incertezas perambulam de praça em praça – a Europa que o diga, em especialos bancos italianos (grandes credores do país), hoje em situação muitovulnerável.

No entanto, também não há espaço a dúvidas de que a maioreconomia global, hoje vitimada por profundas incertezas em decorrência de desajustesem suas contas públicas, tenha contribuído, sobremaneira, para essedesequilíbrio ora experimentado.

O tempo tem mostrado que em economia certas premissas sãotidas como espécie de "normas” irrefutáveis. Uma delas atesta, por exemplo, queinsegurança (leia-se risco) quanto à economia é claro sinal de consumo menor àfrente; logo, isso faz travar a produção e a geração de empregos e renda. Eis ocenário completo de uma recessão.

Tempos estranhos

O que pouco tempo atrás era inimaginável hoje é fato; o queera mera obra de ficção ou discurso retórico hoje é realidade. Nos EstadosUnidos da atualidade, republicanos e democratas parecem não entender que dívidagera dúvida. E a dúvida, nesse caso, faz travar à locomotiva (economia dos EUA)que puxa o resto do mundo. Risco de default (quem diria que os EUA cogitariamisso?), crise política, rebaixamento da classificação de risco dos títulospúblicos (quem poderia prever isso?), pressão da maior credora (China),turbulência na zona do Euro, taxa de desemprego elevada. São "tempos estranhos”escreve Luciana Coelho (Folha S. Paulo, A2, 07/08/11). Continua a articulistaponderando que "o país do culto à assertividade descobre a falta de certezas.Quem tanto cobrou ação agora atrai o temor alheio”. Na essência, o que vemocorrendo é um "mixed-feelings” (confusão de sentimentos). Essa "confusão”desorienta mais ainda o já desorientado mercado.

O que vem pela frente? Difícil prever em se tratando detempos globalizados aonde as informações se propagam com rapidez inimaginável.Pouco tempo atrás, o "mundo econômico” era bem conhecido: os maiores devedorese as praças econômicas pouco confiáveis eram Brasil, Argentina e Turquia. Astaxas de juros mais elevadas sempre estiveram por aqui e o risco deinvestimentos eram altos pelas bandas de cá; não raros eram os ataquesespeculativos e a América Latina, antigo "quintal” do FMI e do Banco Mundial,servia de "exportação de capitais” para bancos estrangeiros.

Hoje, um pedaço considerável da Europa, do clube rico epré-falido, está com o pires na mão pedindo dinheiro, eis os casos de Portugal,Espanha, Grécia, Irlanda e Itália. A taxa de desemprego na zona do Euro estáacima dos dois dígitos. Especialmente na Espanha, o desemprego entre jovens de18 a 25 anos é maior que 20%.

Por aqui, o dólar "derrete”, a bolsa despenca e o mercado"abre” o olho atônito. Na esteira de uma política monetária expansiva praticadapelos EUA desde 2008, na tentativa de injetar bilhões e bilhões de dólares queserviriam em tese para reaquecer o consumo, os dólares migram com maiorvelocidade mundo afora. Mais dólares em nossa economia (somente em julho oingresso foi de US$ 18 bilhões), maior é a valorização do Real e menor nossacapacidade de exportação o que resulta em considerável perda de competitividadeda indústria brasileira. O que por ora nos sustenta atende pelo nome de consumointerno, de um lado, e pelos preços elevados das commodities, de outro. Mas,como a economia é feita mais de perguntas que respostas, fica a indagação: atéquando isso se manterá?

Caso venha a ocorrer o que ninguém deseja - uma segundarecessão na América do Norte e uma debandada financeira na Europa-,implacavelmente os preços do petróleo, do minério de ferro e mesmo da soja,nossas "meninas de ouro” da pauta de exportação seriam prejudicadas com oaviltamento dos preços. Com isso, nossa capacidade de exportação diminuiria,nossos empregos minguariam e nossa renda se enfraqueceria. Assim, os reflexosem 2012 seriam imediatos. 2012, além da eleição presidencial norte-americana éum ano-chave para o futuro econômico de todos que esperamos seja mais decalmaria e de certezas do que de instabilidade e vulnerabilidade. Que nãotenhamos turbulências e/ou aflições. E isso nada tem a ver com a ficçãocinematográfica que aponta o "fim do mundo” em dezembro do próximo ano.

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