O Comitê de Política Monetária (Copom) realizou, nesta quarta-feira, um corte de 1,0 ponto percentual do juro básico brasileiro, ritmo não visto desde o final de 2003. Na primeira redução desde setembro de 2007, a Selic caiu para 12,75% ao ano. A decisão foi por cinco votos a três, sendo que os dissidentes defenderam uma redução mais branda, de 0,75 ponto percentual.
"Com isso, o comitê inicia um processo de flexibilização da política monetária realizando de imediato parte relevante do movimento da taxa básica de juros, sem prejuízo para o cumprimento da meta para a inflação", apontou em nota o Copom.
Pesquisa da agência inglesa de notícias Reuters feita na semana passada já apontava a previsão de que o ciclo de afrouxamento monetário seria iniciado. Naquele momento, no entanto, os analistas estavam divididos entre corte de 0,50 e de 0,75 ponto percentual.
Mas nos últimos dias surgiram apostas de que era possível um corte de até 1,0 ponto.
– O tamanho da desaceleração (da economia) que o Copom está enxergando é muito grande. A situação é bastante crítica... É um sinal muito forte para coordenar as expectativas – avaliou Roberto Padovani, economista-chefe do Banco WestLB do Brasil.
No setor real, crítico feroz do juro alto, a decisão chegou a ser vista com surpresa --embora muitos empresários defendam mais reduções.
– Foi uma demonstração de que o Banco Central também está preocupado com a crise. Até 1,5 ponto percentual eu acharia perfeitamente viável, mas 1,0 ponto é melhor do qu eu esperava, que era de 0,75 ponto – disse Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).
Cortes pontuais
O BNP Paribas destacou na comunicado do Copom o comentário de que uma "parte significativa" da redução da Selic já foi implementada.
– Tal sentença foi a mesma usada quando o BC iniciou o ciclo de aperto monetário em abril de 2008, que elevou a Selic num total de 2,25 pontos percentuais – afirmou em relatório.
Analistas também destacaram que os dados econômicos se enfraqueceram de forma mais acentuada a partir de dezembro, como consequência da crise global. Algumas empresas, principalmente do setor automotivo, anunciaram demissões e o Ministério do Trabalho e Emprego registrou em dezembro o pior fechamento de postos de trabalho desde 1999.
Já do lado da inflação, os indicadores mostraram-se bem comportados - a despeito da recente desvalorização do real. A segunda prévia do Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), divulgado nesta quarta-feira, apontou deflação de 0,58%, por exemplo.
– O Copom resolveu adiantar grande parte do ajuste agora, mas isso não muda a perspectiva para a Selic no final do ano, que continua algo em torno de 11% a 11,25% ao ano – disse John Welch, economista global do Itaú.
A próxima reunião do Copom está agendada para os dias 10 e 11 de março.