Pressupostos para a construção de uma nova maneira de ser Igreja
Já dissemos que a crise irreversível da Igreja Católica e a contra-reforma contra a reforma realizada pelo Concílio Vaticano II e pelos eventos de Medellín, Puebla e Santo Domingo não nega a possibilidade de construir uma nova maneira de ser Igreja, um novo modelo de Igreja ou uma nova tendência dentro da Igreja. A seguir, veremos os pressupostos para esta reconstrução e a força que a torna possível.
Primeiro: será muito importante a ruptura com o eurocentrismo da Igreja e com o mito de uma Europa cristã evangelizadora. Isto não significa romper nossa comunhão com o bispo de Roma, como centro de unidade de toda a Igreja Católica.
Segundo: o novo modelo de Igreja terá como espaço fundamental o Terceiro Mundo, definido pela contradição Norte-Sul. Para nós, o sul existe e a relação sul-sul afirma nossa identidade. O horizonte da nova maneira de ser Igreja será a América Latina, o Caribe, a África, a Ásia e a Oceania.
Terceiro: o novo modelo será radicalmente ecumênico. Somente com uma profunda solidariedade ecumênica poderemos resistir à crise do modelo conservador de Igreja pelo processo de contra-reforma na Igreja Católica. Solidariedade com as Igrejas protestantes, evangélicas e outras Igrejas cristãs do Oriente e todas aquelas que têm uma dimensão ecumênica. O ecumenismo é um espaço de liberdade e de diálogo, onde se respeita a pluralidade de tradições e de confissões. O ecumenismo recupera a pluralidade das Igrejas que os apóstolos nos deixaram.
Quarto: o diálogo inter-religioso, especialmente com o Judaísmo e o Islã, que são as três religiões chamadas de abraâmicas. Diálogo também com outras religiões importantes da Ásia, da África e religiões autóctones da América Latina. O diálogo inter-religioso, mais do que "diálogo", será uma profunda comunhão espiritual e solidária. Os temas do diálogo inter-religioso não serão temas dogmáticos, mas de vida ou morte, como a paz, a guerra, a fome e outros. O objetivo principal da "missão" já não será a "conversão" do outro, mas somar forças na construção da paz. "Sincretismo" não significa relativismo ou confusão; mas, literalmente, significa "somar forças" em função da paz. Por isso, o diálogo inter-religioso pratica o sincretismo, a oração em comum, a solidariedade e o respeito mútuo.
Quinto: fidelidade irrestrita ao Concílio Ecumênico Vaticano II (1962 -1965)
Recordemos aqui alguns temas teológicos mínimos para não esquecê-los ou para dá-los a conhecer a muitos que nunca tiveram acesso a eles. Estes temas são:
- A Igreja é o Povo de Deus, não somente sua estrutura hierárquica. Sua razão de ser não está nela mesma, mas no Reino de Deus. A Igreja subsiste na Igreja Católica. Sacerdócio comum dos fiéis dotados de múltiplos carismas. Colegialidade episcopal (Lumen Gentium)
- A Sagrada Escritura é o fundamento da Igreja e a alma da teologia. O Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas totalmente a seu serviço. A Igreja, mais do que possuir a verdade, caminha em direção à plenitude da verdade (Dei Verbum)
- A Igreja tem seu lugar próprio no mundo, aberta à modernidade e ao humanismo contemporâneo. Autonomia do temporal frente à Igreja (Gaudium et Spes)
Outros temas importantes no Concílio são: a reforma litúrgica, o ecumenismo, a liberdade religiosa, os meios de comunicação e os Direitos Humanos.
Sexto: fidelidade à Segunda Conferência do Episcopado Latino-americano em Medellín (1968)
Recordemos alguns textos: "Os principias culpados da dependência de nossos países são aquelas forças que, inspiradas no lucro sem freio, conduzem à ditadura econômica e ao 'imperialismo internacional do dinheiro'"; "situação de injustiça que pode ser chamada 'violência institucionalizada'"; "educação libertadora: que converte o educando em sujeito de seu próprio desenvolvimento"; "um surdo clamor brota de milhões de homens, pedindo a seus pasto