Crise do capitalismo leva emprego na indústria nacional à primeira queda desde junho de 2009
O emprego industrial teve queda de 0,2% em junho na comparação com maio, depois de ter ficado praticamente estável nos últimos três meses, segundo dados divulgados nesta quinta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O emprego industrial teve queda de 0,2% em junho na comparação com maio, depois de ter ficado praticamente estável nos últimos três meses, segundo dados divulgados nesta quinta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com este resultado, a média móvel trimestral teve uma queda de 0,1%, entre os trimestres terminados em maio e junho. Foi o primeiro restultado negativo captado pelo IBGE desde julho de 2009, quando houve outra queda de 0,1% da média móvel trimestral.
Em relação a junho de 2010, o emprego industrial, no entanto, aumentou 0,7% , a 17ª taxa positiva consecutiva nesta base de comparação. No segundo trimestre, também em comparação com o mesmo período em 2010, houve um crescimento de 1,2%. A taxa de emprego industrial acumulada nos últimos 12 meses continua em alta, com taxa de 3,1%. No primeiro semestre de 2011, houve aumento de 1,9% do emprego industrial em relação ao mesmo período no ano passado.
Ainda na pesquisa do IBGE, o comércio varejista ampliado, que inclui as atividades de veículos, motos, partes e peças e de material de construção, registrou crescimento de 0,5% nas vendas em junho ante maio. Já a receita nominal subiu 1,2% no mesmo período, na série com o ajustamento sazonal, informou hoje o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Na comparação com junho do ano passado (sem ajuste sazonal), as variações foram positivas em 9,5% para o volume de vendas e em 12,0% para a receita nominal. No acumulado do ano e dos últimos 12 meses, o setor apresentou altas de 9,2% e 11,0% para o volume, e de 12,0% e 13,8% para a receita nominal de vendas, respectivamente.
Contaminação
Embora a indústria seja a primeira a sofrer com o declínio causado pela crise do capitalismo internacional, é no comércio que a situação tende a se apresentar de forma mais severa. Ao avaliar os rumos da economia brasileira, em entrevista ao diário conservador paulistano O Estado de S. Paulo, o ex-presidente do Banco Central (BC) Henrique Meirelles, que estava no comando da instituição em 2008 quando a quebra do Lehman Brothers interrompeu o crédito internacional e atingiu a economia brasileira, disse que a crise hoje é bem diferente, com mais dificuldades para recuperar o crescimento global e possibilidade de recessão nos Estados Unidos, mas o problema ainda se restringe ao endividamento dos governos.
Na a avaliação de Meirelles, não há uma contaminação do sistema financeiro, embora exista uma grande preocupação com os bancos, principalmente europeus. Por isso, a principal via de contágio para o Brasil hoje é o comércio, por meio de queda dos preços das commodities e da redução de demanda por produtos brasileiros no exterior.
– Não há dúvida que o canal de transmissão é comercial. Mas, como em 2008, isso pode mudar a cada 24 horas – afirmou.
Presidente mais longevo do BC, ocupando o cargo entre 2003 e 2010, Meirelles, que hoje é presidente do Conselho Público Olímpico, não quis responder perguntas sobre como a autoridade monetária deve agir nesse momento. Disse apenas que "não há dúvida" que a economia mundial hoje é mais "contracionista", mas que "a grande lição de 2008" é que o BC deve reagir "a situações reais e não ao que deveria ser".
Preparado
Atual presidente do BC, Alexandre Tombini acredita, no entanto, que Brasil está preparado para enfrentar o ambiente internacional "mais desafiador" que deve perdurar pelos próximos dois anos, mas frisou a importância de o país ater-se à política de responsabilidade fiscal para reforçar seu diferencial diante das demais economias.Tombini também avaliou que o país não vive mais "sensação de descontrole inflacionário" e reiterou que a taxa de inflação brasileira acumulada em 12 meses vai cair a partir de setembro, reduzindo-se em cerca de 2 pontos percentuais até abril do ano que vem.
– Temos que confirmar nosso diferencial hoje. O diferencial do Brasil hoje é ter uma condição fiscal bem arrumada – disse Tombini em apresentação durante evento em Brasília, na noite passada.
Ele destacou que a turbulência vivida hoje pelos mercados globais é consequência das medidas tomadas pelas economias avançadas frente à crise financeira de 2008, que acabaram por abalar o equilíbrio fiscal de muitos países. Esse processo não ocorreu no Brasil, que conseguiu retomar a trajetória de queda da relação dívida/PIB após a crise, acrescentou.
– É importante que nós continuemos nessa toada. Avançando na direção de ter uma política fiscal sólida, consistente e robusta neste momento abrirá sim espaço para no futuro, quem sabe, rebalancearmos as políticas macroeconômicas de uma forma responsável, ou seja, atingindo a nossa meta de inflação com a economia crescendo – disse Tombini, acrescentando que o maior controle da dívida gera melhores condições de financiamento para o governo e o setor privado.
O governo anunciou nos últimos dias medidas de desoneração fiscal às empresas que representam uma renúncia de cerca de R$ 30 bilhões nos próximos dois anos. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, garantiu que os programas não ameaçarão as metas fiscais do governo, e conclamou os demais poderes a colaborarem com o esforço de equilíbrio das contas, evitando os reajustes salariais.
Inflação
Em relação à inflação, Tombini ressaltou que houve uma alta significativa dos preços no começo do ano, mas que após as medidas adotadas pelo governo, entre elas o aumento dos juros, "aquela sensação de descontrole inflacionário sumiu". A taxa em 12 meses, que está acima do teto da meta de inflação do ano, de 6,5%, deve desacelerar a partir de setembro, disse ele.
O presidente do BC salientou, ainda, que o câmbio flutuante "é nossa primeira linha de defesa" diante da crise internacional, e ressaltou outros fatores importantes do atual estágio da economia brasileira.
– Temos reservas internacionais... temos um sistema financeiro bem capitalizado, funcionando; o crédito está expandindo. E temos um mercado doméstico bem ampliado... essa é uma fortaleza – garante.
Tombini lembrou também que o Brasil tem - recursos no sistema financeiro depositados no BC em níveis bastante maiores do que dos outros países. Mas alertou que - temos que estar preparados para um agravamento, quando e se ele ocorrer. Conhecemos uma crise de dívida, nós sofremos isso no passado, isso não se resolve isso da noite para o dia.
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