Ao mandar, aos gritos, o presidente venezuelano se calar, quando ele chamou José Maria Aznar de fascista por ter apoiado a empreitada golpista de 2002, o rei Juan Carlos deslocou o debate do campo político e promoveu o retorno de algo que o passado histórico insiste em recalcar: a perversão colonialista.
O “por que não se cala?" é uma clara realização de desejos adormecidos em tempos de império. Não é apenas a irritação de um chefe de Estado com o presidente que lhe diz verdades incômodas; é muito mais que isso. É a raiva de um Bourbon contra mestiços e camponeses que ousam promover levantes contra o jugo espanhol. É um recado póstumo a José Antônio Galan e sua Revolta dos Comuneros, em 1871. É a reiteração da impossibilidade de êxito na luta pelo fim da servidão do trabalho indígena.
O anjo da história de Juan Carlos também está voltado para o passado. Mas ao contrário do Angelus Novus, da tela de Paul Klee, interpretada brilhantemente por Walter Benjamin, ele não vê escombros. Não gostaria de se deter e despertar os mortos. Pelo contrário, ele quer a certeza que o corpo de Tupac Amaru II permanece inerte em Cuzco. O sinal permite que sua representação simbólica fique clara: Por que não se calam Chávez, Morales, Ortega, Michelle Bachelet e Rafael Correa? Acaso não sabem que o comércio entre colônias está proibido? Ignoram que habitam o Vice-Reino da Prata e a lógica absolutista não lhes reconhece direitos? Então, por que não se calam de uma vez por todas?
O regozijo com a determinação da realeza se fez presente no imaginário de distintas elites da América Latina. Não foram apenas os "criollos" hispano-americanos que explicitam seu encantamento. Os nossos conhecidos " mazombeiros" também não pouparam munição.
Para o cientista político Cândido Mendes “as palavras impacientes do rei Juan Carlos falaram por um sentimento internacional generalizado quanto à escalada do ego de Chávez, confundido com a busca da alternativa ao modelo neocapitalista vindo no bojo da hegemonia americana"(...) Quem sabe podem dar um basta ao desmando da revolução bolivariana levada ao grotesco por sobre o ímpeto de sua primeira esperança". Eis um texto que prima tanto pelo estilo prolixo quanto pela desencanto suspeito. Algo comum na literatura política nacional que busca, em formulações áridas, o disfarce para o seu habitual arrivismo.
A direita parlamentar de Pindorama também se manifestou. O senador Demóstenes Torres (Demo-GO) escreveu para um conhecido blog jornalístico: "O presidente plenipotenciário da Venezuela, Hugo Chávez, finalmente tomou merecida carraspana. Chávez chegou saliente à 17ª Cúpula Ibero-Americana e saiu do Chile com cara de cachorro de rua. Coube ao rei da Espanha, Juan Carlos, como um pai impaciente com desajustado e incorrigível filho, mandar que ele se calasse" Sem querer, tocou em questão sensível para o monarca espanhol.
O rei de Espanha é produto do fascismo de Franco. Foi criado por ele, à sua medida e semelhança. Jurou as Leis Fudamentais do Regime, embora não tenha jurado a Constituição de 1978 que institucionalizou a monarquia em um sistema parlamentarista. Para chegar ao trono, foi cúmplice do ditador que exigiu a renúncia de seu pai.
Os momentos e movimentos da história espanhola registram insólitos arranjos de filiação que, sem dúvida, não prescindem do olhar psicanalítico.Se o retorno do recalcado é a volta do que ficou reprimido em nome do pacto com a figura paterna, a reação de Juan Carlos ao ouvir Chávez dizer que Aznar é fascista, não deixa dúvidas quanto ao pai escolhido.
Como destacou Mauro Santayanna em artigo recente, antes de se pronunciar pela "legalidade democrática", o rei silenciou durante a tentativa de golpe de Estado na Espanha, em 1981. Para FHC, no entanto, sua posição no episódio “foi absolutamente fundamental para a democracia”. A história, inegavelmente, comporta várias leituras, mas para “criollos" e "mazombeiros" uma versão eurocêntric