Um barraco de madeira e chão de barro, à beira de um canal de esgoto, numa favela da Cidade de Deus, em Jacarepaguá, na região da Zona Oeste do Rio, chama a atenção de quem passa na rua. No espaço exíguo, escurecido pela umidade, moradores atraídos pelo choro e gritos de crianças encontraram os irmãos de 10, 8, 7 e 2 anos seminus, com feridas pelos corpos, sujos e desnutridos, como se estivessem em um cativeiro. Eles foram abandonados pela mãe, de 26 anos, grávida de três meses, e que não foi mais vista.
Este caso, relatado ao conselho tutelar pela tia das crianças, é mais um dos inúmeros registros de maus-tratos comunicados à Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (DCAV), à Fundação para a Infância e Adolescência (FIA), à Associação Brasileira de Multiprofissional de Proteção à Infância (Abrapia) e delegacias onde onde os fatos ocorrem.
No Rio, esse pesadelo ainda persiste como um quadro de terror em muitas famílias, mas como as denúncias são pulverizadas, é difícil ter uma estatística próxima da realidade.
Mesmo ssim, os números de violência de todos os tipos contra crianças e adolescentes são chocantes.
Em 2005, a DCAV registrou 1.552 casos. Em 2006, chegou a 1.494. Este ano, de janeiro até a última quinta-feira, já havia 610 ocorrências.
Mulher joga água fervente no filho
As agressões contra crianças são atos repugnantes que, em geral, acabam esquecidos nos registros empoeirados das delegacias. Em um levantamento foi constatado o caso da mãe que jogou água fervente no rosto do filho de 10 anos enquanto ele dormia.
Grávida e mãe de outras duas crianças, ela não conteve o ódio provocado por uma grosseria feita pelo menino. Outro caso assustador é o do pai, usuário de drogas, que além de abusar sexualmente da filha de 14 anos, ainda a obrigava a se prostituir para alimentar o vício.
— O pior é que o trauma é para sempre. Essa criança, ao crescer, ainda continua tendo os pais como referência sempre que apresenta um documento ou consultam sua filiação. O ódio no peito, a revolta, fica para a vida inteira — afirma o psicólogo Gilberto Fernandes.
Aumenta número de casos de abuso sexual
O que também impressiona é o aumento de casos de abuso sexual. — É assustador como cresceu a incidência desses casos. Podemos até acreditar que as pessoas passaram a denunciar mais, porém sabemos que a omissão ainda é grande. Muita gente não denuncia por vergonha ou porque não acredita na criança — avalia a titular da DPCA, delegada Renata Teixeira de Assis.
Pelo menos 40% de todos os registros feitos por mês nas delegacias do Estado do Rio de Janeiro são de agressão contra crianças. O maior número de casos ocorre na Baixada Fluminense.
De acordo com a delegada, apenas 1% das denúncias são feitas pelas vítimas. Para ela, o motivo seria o medo de sofrer algum tipo de repreensão. Como a criança não entende que está sendo abusada, acha aceitável os atos libidinosos. Segundo Renata, na maioria dos casos são os pais ou os companheiros dos pais os principais agressores das crianças.
Presa, mãe voltou a abusar dos filhos
— Um caso exemplar desse fenômeno é o da Lucimeri — diz a delegada, numa referência a Lucimeri Pereira, 42 anos, presa na última no Fórum de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, acusada de abusar sexualmente de seus três filhos. No dia seguinte, em depoimento na DCAV, ela confessou o crime aos investigadores.
De acordo com a polícia, Lucimeri abusava das crianças com seu ex-marido, pai de dois dos seus filhos; seu companheiro atual, pai da terceira criança; e o dono do sítio onde morava.
Segundo contou aos policiais, seus filhos eram violentados desde os dois anos de idade – as crianças têm agora entre 3 e 9 anos.
Eles praticavam orgias sexuais, ameaçavam as crianças com arma de fogo, forçavam os menor