Rio de Janeiro, 13 de Setembro de 2026

Crime organizado pode estar infiltrado no Judiciário

Quarta, 05 de Janeiro de 2005 às 16:35, por: CdB

O juiz Carlos Eduardo Ribeiro Lemos, titular da 5.ª Vara Criminal de Vitória, que mandou para a cadeia o ex-presidente da Assembléia Legislativa do Espírito Santo José Carlos Gratz e toda a família do ex-diretor da Casa André Nogueira, admite a possibilidade de o crime organizado estar infiltrado no Judiciário capixaba e defende a expulsão de eventuais magistrados corruptos.

Ao ser preso sob acusação de formação de quadrilha e apropriação de dinheiro público, no dia 6, uma segunda-feira, Gratz declarou que sabia da decisão desde a tarde do sábado anterior, 4 de dezembro, quando tomava um drinque no Iate Clube da capital capixaba, na suposta companhia de outro juiz.

A pedido de Lemos, a presidência do Tribunal de Justiça (TJ), determinou que o caso fosse investigado.

-Você imaginar que um juiz possa estar passando esse tipo de informação para um sujeito que está sendo investigado por tantas ações criminosas é uma coisa muito séria que a gente não pode compactuar de forma alguma. É muito preocupante - disse o juiz titular da 5.ª Vara Criminal de Vitória.

- Acho que, em todos os poderes e até na atividade privada, tem pessoas que não são muito corretas, e isso pode estar acontecendo também no Judiciário. Como teve uma confissão da parte dele, réu em ações penais, ele vai ter de esclarecer. Se tem, realmente, algum juiz colaborando com essas organizações criminosas, na minha opinião, tem de ser excluído dos nossos quadros. É o mínimo que o Judiciário pode dar à sociedade capixaba.

Na semana da prisão, o advogado de Gratz, Homero Mafra, confirmou que ele sabia que seria detido. Ao chegar de boné e camiseta à carceragem da 5.ª Delegacia de Polícia (DP), na Praia do Canto, o ex-presidente da Assembléia Legislativa do Espírito Santo afirmou, em tom irônico, que tinha sido avisado por um juiz e dois advogados da decisão, mas que preferiu esperar em casa a chegada da polícia.

- Ele (Gratz) estava no Iate Clube no sábado, teve notícia de que existia essa possibilidade (de detenção) e me consultou para saber o que fazer, se valia a pena sair do Estado, mas eu nunca aconselharia isso - disse Mafra.

- Isso aqui é igual a Casablanca; prendam os mesmos suspeitos de sempre. O inquérito tem um ano e acho estranho que a prisão saia agora, no momento em que o Estado vive uma crise na segurança.

Lemos disse que pediu a abertura do procedimento e a realização de uma oitiva com Gratz para que "esclarecer quem foi esse juiz e, se isso realmente aconteceu, como é que essa informação chegou ao juiz".

- Não nos conformamos com isso; a gente acha que isso tem de ser esclarecido, até para que depois não venham falar que foi um de nós. Se for um blefe, vai ser desmascarado.

A Receita Federal identificou o desvio de R$ 10,6 milhões da Assembléia Legislativa e uma série de bens em nome da família de Nogueira comprados, supostamente, com recursos do Legislativo - segundo o MP, a fraude pode passar R$ 50 milhões. Os pedidos de liminar dos habeas-corpus do ex-presidente da Assembléia Legislativa e dos outros acusados foram negados pela Justiça.

- Gratz sempre falou que era invencível, imbatível, coisas do gênero; fazia passar essa impressão de que tinha todos os poderes na mão. Por isso mesmo, acho que o Judiciário tem a obrigação de investigar se teve juiz passando informação para ele - afirmou o juiz. Lemos assumiu a vaga do juiz Alexandre Martins de Castro Filho, que coordenava investigações sobre o crime organizado no Estado e foi assassinado no início de 2003. Estão presos dois policiais militares, acusados de participação no crime, aguardando julgamento.

Tags:
Edições digital e impressa